Versos Portuguese Casimiro de Abreu Canto de amor

Portuguese poem

Canto de amor

by (1839–1860)

Listen in the reader

I Eu vi-a e minha alma antes de vê-la Sonhara-a linda como agora a vi; Nos puros olhos e na face bela, Dos meus sonhos a virgem conheci.

Era a mesma expressão, o mesmo rosto, Os mesmos olhos só nadando em luz, E uns doces longes, como dum desgosto. Toldando a fronte que de amor seduz!

E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso Como a palmeira que se ergue ao ar, Como a tulipa ao pôr-do-sol saudoso, Mole vergando à viração do mar.

Era a mesma visão que eu dantes via, Quando a minha alma transbordava em fé; E nesta eu creio como na outra eu cria, Porque é a mesma visão, bem sei que é!

No silêncio da noite a virgem vinha Soltas as tranças junto a mim dormir; E era bela, meu Deus, assim sozinha No seu sono d'infante inda a sorrir!...

II Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo, Tal como a brisa ao perpassar na flor, Mas nesse instante resumi um mundo De sonhos de ouro e de encantado amor.

O seu olhar não me cobriu d'afago, E minha imagem nem sequer guardou, Qual se reflete sobre a flor dum lago A branca nuvem que no céu passou.

A sua vista espairecendo vaga, Quase indolente, não me viu, ai, não! Mas eu que sinto tão profunda a chaga Ainda a vejo como a vi então.

Que rosto d'anjo, qual estátua antiga No altar erguida, já cabido o véu! Que olhar de fogo, que a paixão instiga? Que níveo colo prometendo um céu.

Vi-a e amei-a, que a minha alma ardente Em longos sonhos a sonhara assim; O ideal sublime, que eu criei na mente, Que em vão buscava e que encontrei por fim!

III P'ra ti, formosa, o meu sonhar de louco E o dom fatal, que desde o berço é meu; Mas se os cantos da lira achares pouco, Pede-me a vida, porque tudo é teu.

Se queres culto - como um crente adoro, Se preito queres - eu te caio aos pés, Se rires - rio, se chorares - choro, E bebo o pranto que banhar-te a tez.

Dá-me em teus lábios um sorrir fagueiro, E desses olhos um volver, um só; E verás que meu estro, hoje rasteiro, Cantando amores s'erguerá do pó!

Vem reclinar-te, como a flor pendida, Sobre este peito cuja voz calei: Pede-me um beijo... e tu terás, querida, Toda a paixão que para ti guardei.

Do morto peito vem turbar a calma, Virgem, terás o que ninguém te dá; Em delírios d'amor dou-te a minha alma, Na terra, a vida, a eternidade - lá!

IV Se tu, oh linda, em chama igual te abrasas, Oh! não me tardes, não me tardes, - vem! Da fantasia nas douradas asas Nós viveremos noutro mundo - além!

De belos sonhos nosso amor povôo, Vida bebendo nos olhares teus; E como a garça que levanta o vôo, Minha alma em hinos falará com Deus!

Juntas, unidas num estreito abraço, As nossas almas uma só serão; E a fronte enferma sobre o teu regaço Criará poemas d'imortal paixão!

Oh! vem, formosa, meu amor é santo, É grande e belo como é grande o mar, E doce e triste como d'harpa um canto Na corda extrema que já vai quebrar!

Oh! vem depressa, minha vida foge... Sou como o lírio que já murcho cai! Ampara o lírio que inda é tempo hoje! Orvalha o lírio que morrendo vai!...