Portuguese poem
Ao Romper d’Alva
by Castro Alves
Pagina feia, que ao futuro narra Dos homens de hoje a lassidão, a historia Com pranto escripta, com suor sellada Dos pariás miserrimos do mundo!... Pagina feia, que eu não posso altivo Romper, pisar-te, recalcar, punir-te!...
Calasans
Sigo só caminhando serra acima, E meu cavallo a galopar se anima Aos bafos da manhã. A alvorada se eleva do levante, E, ao mirar na lagôa seu semblante, Julga ver sua irmã.
As estrellas fugindo — aos nenuphares Mandam rutilas perolas dos ares De um desfeito collar. No horizonte desvendam-se as collinas, Sacode o veu de sonhos de neblinas A terra ao despertar.
Tudo é luz, tudo aroma e murmurio, A barba branca da cascata o rio
Faz orando tremer. No descampado o cedro curva a frente, Folhas e prece aos pés do Omnipotente Manda a lufada erguer.
Terra de Santa Cruz, sublime verso Da epopéa gigante do universo, Da immensa creação, Com tuas mattas, cyclópes de verdura, Onde o jaguar, que passa na espessura, Roja as folhas no chão,
Como és bella, soberba, livre, ousada! Em tuas cordilheiras assentada A liberdade está. A purpura da bruma a ventania Rasga, espedaça o sceptro que s’erguia Do rijo piquiá.
Livre o tropeiro toca o lote e canta A languida cantiga com que espanta A saudade, a afflicção. Solto o ponche, o cigarro fumegando Lembra a serrana bella, que chorando Deixou lá no sertão.
Livre como o tufão corre o vaqueiro Pelos morros e vargea e taboleiro
Do intrincado sipó. Que importa’os dedos da jurema aduncos? A anta, ao vel-os, occulta-se nos juncos, Voa a nuvem de pó.
Dentre a flor amarella das encostas Mostra a testa luzida, as largas costas No rio o jacaré. Catadupas sem freios, vastas, grandes, Sois a palavra livre d’esses Andes Que além surgem de pé.
Mas o que vejo? E’ um sonho!... A barbaria Erguer-se n’este seculo, á luz do dia, Sem pejo se ostentar. E a escravidão — nojento crocodilo Da onda turva expulso lá do Nilo — Vir aqui se abrigar!.
Oh! Deus! não ouves d’entre a immensa orchesta Que a natureza virgem manda em festa Soberba, senhoril, Um grito que soluça afflicto, vivo, O retinir dos ferros do captivo, Um som discorde e vil?
Senhor, não deixes que se manche a tela Onde traçaste a creação mais bella
De tua inspiração. O sol de tua gloria foi toldado... Teu poema da América manchado, Manchou-o a escravidão.
Prantos de sangue — vagas escarlates — Toldam teus rios — lubricos Euphrates — Dos servos de Sião. E as palmeiras se torcem torturadas, Quando escutam dos morros nas quebradas O grito de afflicção.
Oh! ver não posso este labéo maldito! Quando dos livres ouvirei o grito? Sim.. talvez amanhã. Galopa, meu cavallo, serra acima, Arranca-me a este sólo. Eia! te anima Aos bafos da manhã.