Portuguese poem
Aves da Arribação
by Castro Alves
Era o tempo em que as ágeis andorinhas Consultam-se na beira dos telhados, E inquietas conversam, perscrutando Os pardos horizontes carregados...
Em que as rolas e os verdes periquitos Do fundo do sertão descem cantando... Em que a tribo das aves peregrinas Os Zíngaros do céu formam-se em bando! Viajar! viajar! A brisa morna Traz de outro clima os cheiros provocantes.
A primavera desafia as asas, Voam os passarinhos e os amantes!...
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada Abriram à tardinha as persianas;
E mais festiva a habitação sorria Sob os festões das trêmulas lianas. Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa Quem fossem da casinha os — São noivos — : as mulheres murmuravam! E os pássaros diziam: — São amantes — !
Eram vozes-que uniam-se cotas brisas! Eram risos-que abriam-se cotas flores! Eram mais dois clarões — na primavera! Na festa universal-mais dous amores! Astros! Falai daqueles olhos brandos. Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos!
Ninhos d'aves! dizei, naquele seio, Como era doce um pipilar d'anelos. Sei que ali se ocultava a mocidade... Que o idílio cantava noite e dia... E a casa branca à beira do caminho Era o asilo do amor e da poesia.
Quando a noite enrolava os descampados, O monte, a selva, a choça do serrano, Ouviam-se, alongando à paz dos ermos, Os sons doces, plangentes de um piano. Depois suave, plena, harmoniosa Uma voz de mulher se alevantava...
E o pássaro inclinava-se das ramas E a estrela do infinito se inclinava. E a voz cantava o tremolo medroso De uma ideal sentida barcarola... Ou nos ombros da noite desfolhava As notas petulantes da Espanhola!
As vezes, quando o sol nas matas virgens A fogueira das tardes acendia, E como a ave ferida ensanguentava Os píncaros da longa serrania,
Um grupo destacava-se amoroso, Tendo por tela a opala do infinito, Dupla estátua do amor e mocidade Num pedestal de musgos e granito. E embaixo o vale a descantar saudoso Na cantiga das moças lavadeiras!...
E o riacho a sonhar nas canas bravas. E o vento a s'embalar nas trepadeiras. O crepúsculos mortos! Voz dos ermos!
Montes azuis! Sussurros da floresta! Quando mais vós tereis tantos afetos
Vicejando convosco em vossa festa?... E o sol poente inda lançava um raio Do caçador na longa carabina... E sobre a fronte d'Ela por diadema Nascia ao longe a estrela vespertina.
É noite! Treme a lâmpada medrosa Velando a longa noite do poeta... Além, sob as cortinas transparentes Ela dorme... formosa Julieta!
Entram pela janela quase aberta Da meia-noite os preguiçosos ventos E a lua beija o seio alvinitente — Flor que abrira das noites aos relentos. O Poeta trabalha!... A fronte pálida Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso Tendo por musa — o amor e a natureza! E como o cáctus desabrocha a medo Das noites tropicais na mansa calma, A estrofe entreabre a pétala mimosa Perfumada da essência de sua alma.
No entanto Ela desperta... num sorriso Ensaia um beijo que perfuma a brisa... ... A Casta-diva apaga-se nos montes... Luar de amor! acorda-te, Adalgisa!
Hoje a casinha já não abre à tarde Sobre a estrada as alegres persianas. Os ninhos desabaram... no abandono Murcharam-se as grinaldas de lianas. Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes? ... A Primavera, que arrebata as asas... Levou-lhe os passarinhos e os amantes!...