Portuguese poem
É Tarde
by Castro Alves
É tarde! É muito tarde! O templo é negro… O fogo-santo já no altar não arde. Vestal! não venhas tropeçar nas piras... É tarde! É muito tarde!
Treda noite! E minh'alma era o sacrário, A lâmpada do amor velava entanto, Virgem flor enfeitava a borda virgem Do vaso sacrossanto.
Quando Ela veio — a negra feiticeira — A libertina, lúgubre bacante, Lascivo olhar, a trança desgrenhada, A roupa gotejante.
Foi minha crença-o vinho dessa orgia, Foi minha vida— a chama que apagou-se, Foi minha mocidade —o toro lúbrico, Minh'alma — o tredo alcouce.
E tu, visão do céu! Vens tateando O abismo onde uma luz sequer não arde? Ai! não vos resvalar no chão lodoso... E tarde! E muito tarde!
Ai! não queiras os restos do banquete! Não queiras esse leito conspurcado! Sabes? meu beijo te manchara os lábios Num beijo profanado.
A flor do lírio de celeste alvura Quer da lucíola o pudico afago... O cisne branco no arrufar das plumas Quer o aljôfar do lago.
É tarde! A rola meiga do deserto Faz o ninho na moita perfumada... Rola de amor! não vás ferir as asas Na ruína gretada.
Como o templo, que o crime encheu de espanto, Êrmo e fechado ao fustigar do norte, Nas ruínas desta alma a raiva geme... E cresce o cardo — a morte
Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! Vós povoais-me a solidão sombria, Quando nas trevas a tormenta ulula Um uivo de agonia!...
E tarde! Estrela-d'alva! o lago é turvo. Dançam fogos no pântano sombrio. Pede a Deus que dos céus as cataratas Façam do brejo — um rio!
Mas não...! Somente as vagas do sepulcro Hão de apagar o fogo que em mim arde... Perdoa-me, Senhora!... Eu sei que morro... E tarde! E muito tarde!...