Portuguese poem
O segredo
by Castro Alves
Que jamais tuas mãos inocentes Ferirão meu algoz derradeiro...
Meu filho, eu fui a vítima Da raiva e do ciúme.
Do tigre — a malvadez, Do cascavel — o rancor!...
— Um grito de vingança? — Não, pobre criança! ...
Um crime a perdoar... o que é melhor!... "Depois. teve razão... Esta mulher
"Teu irmão, que é seu filho... (ó magoa e dor!) "Teu pai — que é seu marido... e teu senhor! ... "Juras não me vingar? — ó mãe, eu juro
Por ti, pelos beijos teus! "— Obrigada! agora... agora
Já nada mais me demora... Deus! — recebe a pecadora! Filho! — recebe este adeus!"
Quando, rompendo as barras do oriente, A estrela da manhã mais desmaiava, E o vento da floresta ao céu levava O canto jovial do bem-te-vi; Na casinha de palha uma criança, Da defunta abraçando o corpo frio, Murmurava chorando em desvario: — Eu não me vingo, ó mãe... juro por ti!..."
Maria calou-se... Na fronte do Escravo Suor de agonia gelado passou; Com riso convulso murmura: "Que importa Se o filho da escrava na campa jurou?!...
"Que tem o passado com o crime de agora? Que tem a vingança, que tem com o perdão?" E como arrancando do crânio uma idéia Na fronte corria-lhe a gélida mão...
"Esquece o passado! Que morra no olvido... Ou antes relembra-o cruento, feroz! Legenda de lodo, de horror e de crimes E gritos de vítima e risos de algoz!
"No frio da cova que jaz na explanada, — Vingança — murmuram os ossos dos meus!"
— Não ouves um canto, que passa nos ares? — Perdoa! — respondem as almas nos céus!"
— "São longos gemidos do seio materno Lembrando essa noite de horror e traição!"
— "É o flébil suspiro do vento, que outrora Bebera nos lábios da morta o perdão!..."
E descaiu profundo Em longo meditar... Após sombrio e fero Viram-no murmurar:
"Mãe! Na região longínqua Onde tua alma vive, Sabes que eu nunca tive Um pensamento vil. Sabes que esta alma livre Por ti curvou-se escrava; E devorou a bava... E tigre — foi reptil!
"Nem um tremor correra-me A face fustigada! Beijei a mão armada Com o ferro que a feriu... Filho, de um pai misérrimo Fui o fiel rafeiro... Caim, irmão traiçoeiro! Feriste... e Abel sorriu!
"De tanto horror o cúmulo, Ó mãe, alma celeste Se perdoar quiseste, Eu perdoei também. Santificaste os míseros; Curvei-me reverente A eles tão-somente, Somente... a mais ninguém!
"Ninguém! que a nada humilho-me Na terra, nem no espaço!... Pode ferir meu braço... — "Lucas! não pode, não! Mísero a mão que abrira De tua mãe a cova... O golpe hoje renova!... Mata-me!... É teu irmão!..."