Versos Portuguese Cesário Verde Ironias Do Desgosto

Portuguese poem

Ironias Do Desgosto

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«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes-- «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes? «Porque é que não possues a verve dos Francezes «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente, «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções, «E abrigas tanto fel no peito, que não sente «O abalo feminil das minhas expansões?

«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; «Mas quando tentas rir parece então, meu bem, «Que estão edificando um negro cadafalso «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio, «No campo, a quietação banhada de prazer! «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio, «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

«Não vês como a campina é toda embalsamada «E como nos alegra em cada nova flor? «E então porque é que tens na fronte consternada «Um não sei quê tocante e enternecedor?

E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme «Tu vibras os crystaes da bocca musical, «Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha, «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas, «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

«E eu que daria um rei por cada teu suspiro, «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans, «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

HUMILHAÇÕES (De todo o coração--a Silva Pinto)

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job, Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; E espero-a nos salões dos principaes theatros, Todas as noites, ignorado e só.

Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos, Eu analyso as peças no cartaz.

Na representação d'um drama de Feuillet, Eu aguradava, junto à porta, na penumbra, Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador. Roçavam no veludo as guarnições das rendas; E, muito embora tu, burguez, me não entendas, Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por não podia abandonal-a em paz! Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa De vel-a aproximar, sentado na platéa, De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botões; Cada contratador dizia em voz rouquenha: --Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? E ouviam-se cá fóra as ovações.

Que desvanecimento! A perola do Tom! As outras ao pé d'ella imitam as bonecas; Tem menos melodia as harpas e as rabecas, Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; Vi-a subir, direita, a larga escadaria E entrar no camarote. Antes estimaria Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropellar. Era um municipal sobre um cavallo. A guarda Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, má, Pôz-se na minha frente uma velhinha suja, E disse-me, piscando os olhos de coruja: --Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...