Portuguese poem
Impossível
Nós podemos viver alegremente, Sem que venham com fórmulas legais Unir as nossas mãos, eternamente, As mãos sacerdotais.
Eu posso ver os ombros teus desnudos: Palpá-los, contemplar-lhes a brancura, E até beijar teus olhos tão ramudos, Cor de azeitona escura.
Eu posso, se quiser, cheio de manha, Sondar, quando vestida, pra dar fé, A tua camisinha de bretanha Ornada de crochet.
Posso sentir-te em fogo escandecida, De faces cor-de-rosa e vermelhão, Junto a mim, com langor, entredormida, Nas noites de verão.
Eu posso, com valor que nada teme, Contigo preparar lautos festins, E ajudar-te a fazer o leite-creme E os mélicos pudins.
Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo: Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac, Hinos de amor, vestidos de veludo E botas de duraque;
E até posso, com ar de rei (que o sou!), Dar-te cautelas brancas, minha rola; Da grande loteria que passou, Da boa, da espanhola.
Já vês, pois, que podemos viver juntos Nos mesmos aposentos confortáveis, Comer dos mesmos bolos e presuntos, E rir dos miseráveis.
Nós podemos, nós dois, por nossa sina, Quando o Sol é mais rúbido e escarlate, Beber na mesma chávena da China O nosso chocolate.
E podemos até (noites amadas!) Dormir juntos dum modo galhofeiro, Com as nossas cabeças repousadas No mesmo travesseiro.
Posso ser teu amigo até a morte, Sumamente amigo...! Mas, por lei, Ligar a minha sorte à tua sorte Eu nunca poderei!
Eu posso amar-te como o Dante amou, Seguir-te sempre como a luz ao raio... Mas ir contigo à igreja, isso não vou: Lá nessa é que eu não caio!