Portuguese poem
Lua
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Clamydes frescas, de brancuras frias, Finissimas dalmáticas de neve Véstem as longas arvores sombrias, Surgindo a Lua nebulosa e leve...
Névoas e névoas frígidas ondulam... Alagam lacteos e fulgentes rios Que na enluarada refracção trémulam D’entre phosphorescencias, calafrios...
E ondulam névoas, setinosas rêndas De virginaes, de prónubas alvuras... Vagam balladas e visões e lêndas No flórido noivado das Alturas...
E fria, fluente, frouxa claridade Fluctúa como as brumas de um lethargo... E érra no espaço, em toda a immensidade, Um sonho doente, cilicioso, amargo...
Da vastidão dos páramos serenos, Das sideraes abobadas ceruleas Cae a luz em antiphonas, em thrênos, Em mysticismos, orações e dúlias...
E entre os marfins e as pratas diluidas Dos languidos clarões tristes e enfêrmos, Com grinaldas de rôxas margaridas Vagam as Virgens de scysmares êrmos...
Cabellos torrenciaes e dolorosos Bóiam nas ondas dos ethéreos gêlos. E os corpos passam niveos, luminosos, Nas ondas do luar e dos cabellos...
Vagam sombras gentis de mortas, vagam Em grandes procissões, em grandes alas, Dentre as auréolas, os clarões que alagam, Opulencias de pérolas e opalas.
E a Lua vae chlorótica fulgindo Nos seus alpérces ethereaes e brancos, A luz gelada e pallida diluindo Das serranias pelos largos flancos...
O’ Lua das magnolias e dos lyrios! Geleira sideral entre as geleiras! Tens a tristeza mórbida dos cyrios E a lividez da chamma daa poncheiras!
Quando resúrges, quando brilhas e amas, Quando de luzes a amplidão constéllas, Com os fulgôres glaciaes que tu derramas Dás febre e frio, dás nevrôse, gélas...
A tua dôr crystallisou-se ontr’ora Na dôr profunda mais dilacerada E das dôres estranhas, ó Astro, agora, És a suprema Dôr crystalisada!...