Portuguese poem
A Ultima Nau
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o pendão Do Imperio, Foi-se a ultima nau, ao sol aziago Erma, e entre choros de ancia e de presago Mysterio.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta Que teve? Deus guarda o corpo e a fórma do futuro, Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlantica se exalta E entorna, E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço, Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna.
Não sei a hora, mas sei que ha a hora. Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mysterio. Surges ao sol em mim, e a nevoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda Do Imperio.