Portuguese poem
Abismo de ser muitos!
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Abismo de ser muitos! Noite Minha! Encruzilhada do meu vasto ser! Quem quero que seja eu? Quem, no entrever Do que fui, treva anónima e mesquinha?
Como o último estandarte da rainha Com quem o império findo se perdeu, Descem dos astros mudos do atro céu, Poesia, as razões de quanto fui ou tinha.
Nos rumores da treva do que foi Recuam na derrota a murmurar As hostes sem (...) e sem herói
Do meu destino feito a ignorar, E, como à última rainha, dói No meu peito um segredo por achar.