Portuguese poem
Adormecida
by Fernando Pessoa (1888–1935)
As tuas mãos dormiam na lagôa incenso. E pelas alamedas destruídas, loucas, Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas Que me rezaram Ser sôbre o teu manto extenso.
Vagamente desceu sôbre o silêncio, a arfar, Combatendo de luz, a esvoaçar no ataque... E de noite caiu Egipto em meu olhar, Nos teus braços em cruz, sepulcros em Karnak.
Bocas de Faraós rezam múmias cansadas... Tebas em mim fenece em bronze de toadas, Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias.
E tu adormecida há tanto tempo, em pranto. Os cisnes na lagôa embranqueceram tanto, Que se esqueceram Côr nas tuas mãos esguías.