Portuguese poem
Ah, como incerta, na noite em frente
by Fernando Pessoa (1888–1935)
AH, COMO INCERTA, na noite em frente, De uma longínqua tasca vizinha Uma ária antiga, subitamente, Me faz saudade do que as não tinha. A ária é antiga? É-o a guitarra. Da ária mesma não sei, não sei. Sinto a dor-sangue, não vejo a garra. Não choro, e sinto que já chorei.
Qual o passado que me trouxeram? Nem meu nem de outro, é só passado: Todas as coisas que já morreram A mim e a todos, no mundo andado.
É o tempo, o tempo que leva a vida Que chora e choro na noite triste. É a mágoa, a queixa mal definida De quanto existe, só porque existe.