Portuguese poem
Ah, como o sono é a verdade, e a única
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Ah, como o sono é a verdade, e a única Hora suave é a de adormecer! Amor ideal, tens chagas sob a túnica. Esperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros. Como uma feira acaba a tradição. Somos todos palhaços estrangeiros. A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda Do esforço inútil e da sorte incerta! Que a morte virtual da vida toda Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe Chegar à sonolência que se sente; E a alma se desfaça como um peixe Atado pelos dedos de um demente...