Portuguese poem
Ah, quanta vez, na hora suave
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Ah, quanta vez, na hora suave Em que me esqueço, Vejo passar um voo de ave E me entristeço!
Porque é ligeiro, leve, certo No ar de amavio? Porque vai sob o céu aberto Sem um desvio?
Porque ter asas simboliza A liberdade Que a vida nega e a alma precisa? Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre Como uma cheia Meu coração, e entorna sobre Minha alma alheia
Um desejo, não de ser ave, Mas de poder Ter não sei quê do voo suave Dentro em meu ser.