Portuguese poem
Contemplo o que não vejo
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Contemplo o que não vejo. É tarde, é quase escuro, E quanto em mim desejo Está parado ante o muro.
Por cima o céu é grande; Sinto árvores além; Embora o vento abrande, Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado, No que há e no que penso. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso.
Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou Não sinto, não sou triste, Mas triste é o que estou.