Portuguese poem
Dormir! Não ter desejos nem esperanças
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Dormir! Não ter desejos nem esperanças Flutua branca a única nuvem lenta E na azul quiescência sonolenta A deusa do não-ser tece ambas as tranças.
Maligno sopro de árdua quietude Perene a fronte e os olhos aquecidos, E uma floresta-sonho de ruídos Ensombra os olhos mortos de virtude.
Ah, não ser nada conscientemente! Prazer ou dor? Torpor o traz e alonga, E a sombra conivente se prolonga No chão interior, que à vida mente.
Desconheço-me. Embrenha-me, futuro, Nas veredas sombrias do que sonho. E no ócio em que diverso me suponho, Vejo-me errante, demorado e obscuro.
Minha vida fecha-se como um leque. Meu pensamento seca como um vago Ribeiro no Verão. Regresso, e trago Nas mãos flores que a vida prontas seque.
Incompreendida vontade absorta Em nada querer... Prolixo afastamento Do escrúpulo e da vida do momento...