Portuguese poem
Elegia
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Minha presença de setim, Toda bordada a côr de rosa, Que fôste sempre um adeus em mim Por uma tarde silenciosa...
Ó dedos longos que toquei, Mas se os toquei, desapareceram... Ó minhas bôcas que esperei, E nunca mais se me estenderam...
Meus Boulevards d'Europa e beijos Onde fui só um espectador... --Que sôno lasso, o meu amor; --Que poeira d'ouro, os meus desejos...
Ha mãos pendidas de amuradas No meu anseio a divagar... Em mim findou todo o luar Da lua dum conto de fadas...
Eu fui alguem que se enganou E achou mais belo ter errado... Mantenho o trôno mascarado Aonde me sagrei Pierrot.
Minhas tristezas de cristal, Meus débeis arrependimentos São hoje os velhos paramentos Duma pesada Catedral.
Pobres enleios de carmim Que reservara pra algum dia... A sombra loira, fugidia, Jámais se abeirará de mim...
--Ó minhas cartas nunca escritas, E os meus retratos que rasguei... As orações que não rezei... Madeixas falsas, flôres e fitas...
O «petit-bleu» que não chegou... As horas vagas do jardim... O anel de beijos e marfim Que os seus dedos nunca anelou...
Convalescença afectuosa Num hospital branco de paz... A dôr magoada e duvidosa Dum outro tempo mais lilaz...
Um braço que nos acalenta... Livros de côr á cabeceira... Minha ternura friorenta-- Ter amas pela vida inteira...
Ó grande Hotel universal Dos meus frenéticos enganos, Com aquecimento-central, Escrocs, cocottes, tziganos...
Ó meus Cafés de grande vida Com dançarinas multicolôres... --Ai, não são mais as minhas dôres Que a sua dança interrompida...
Lisboa--março de 1915.