Portuguese poem
Em busca da beleza
by Fernando Pessoa (1888–1935)
I
Soam vãos, dolorido epicurista, Os versos teus, que a minha dor despreza; Já tive a alma sem descrença presa Desse teu sonho, que perturba a vista.
Da Perfeição segui em vã conquista, Mas vi depressa, já sem a alma acesa, Que a própria idéia em nós dessa beleza Um infinito de nós mesmos dista.
Nem à nossa alma definir podemos A Perfeição em cuja estrada a vida, Achando-a intérmina, a chorar perdemos.
O mar tem fim, o céu talvez o tenha, Mas não a ânsia da Cousa indefinida Que o ser indefinida faz tamanha.
II
Nem defini-la, nem achá-la, a ela – A Beleza. No mundo não existe. Ai de quem coma alma inda mais triste Nos seres transitórios quer colhê-la!
Acanhe-se a alma porque não conquiste Mais que o banal de cada cousa bela, Ou saiba que ao ardor de querer havê-la – À Perfeição – só a desgraça assiste.
Só quem da vida bebeu todo o vinho, Dum trago ou não, mas sendo até o fundo, Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;
Conhece o tédio extremo da desgraça Que olha estupidamente o nauseabundo Cristal inútil da vazia taça.
III
Só que puder obter a estupidez Ou a loucura pode ser feliz. Buscar, querer, amar . . . tudo isto diz Perder, chorar, sofrer, vez após vez.
A estupidez achou sempre o que quis Do círculo banal da sua avidez; Nunca aos loucos o engano se desfez Com quem um falso mundo seu condiz.
Há dois males: verdade e aspiração, E há uma forma só de os saber males: É conhecê-los bem, saber que são
Um o horror real, o outro o vazio – Horror não menos – dois como que vales Duma montanha que ninguém subiu.
IV
Leva-me longe, meu suspiro fundo, Além do que deseja e que começa, Lá muito longe, onde o viver se esqueça Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo O seu lugar exterior conheça, Aí durma em fim, aí enfim faleça O cintilar do espírito fecundo.
Aí . . . mas de que serve imaginar Regiões onde o sonho é verdadeiro Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração, E, falhando esse sonho derradeiro, Encontrar mais vazio o coração.
V
Braços cruzados, sem pensar nem crer, Fiquemos pois sem mágoas nem desejos. Deixemos beijos, pois o que são beijos? A vida é só o esperar morrer.
Longe da dor e longe do prazer, Conheçamos no sono os benfazejos Poderes únicos; sem urzes, brejos, A sua estrada sabe apetecer.
C’roado de papoilas e trazendo Artes porque com sono tira sonhos, Venha Morfeu, que as almas envolvendo,
Faça a felicidade ao mundo vir Num nada onde sentimo-nos risonhos Só de sentirmos nada já sentir.
VI
O sono – Oh, ilusão! – o sono? Quem Logrará esse vácuo ao qual aspira A alma que de aspirar em vão delira E já nem força para querer tem?
Que sono apetecemos? O d’alguém Adormecido na feliz mentira Da sonolência vaga que nos tira Todo o sentir na qual a dor nos vem?
Ilusão tudo! Querer um sono eterno, Um descanso, uma paz, não é senão O último anseio desesperado e vão.
Perdido, resta o derradeiro inferno Do tédio intérmino, esse de já não Nem aspirar a ter aspiração.