Portuguese poem
Fernão de Magalhães
by Fernando Pessoa (1888–1935)
No valle clareia uma fogueira. Uma dança sacode a terra inteira. E sombras disformes e descompostas Em clarões negros do valle vão Subitamente pelas encostas, Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra? São os Titans, os filhos da Terra, Que dançam da morte do marinheiro Que quiz cingir o materno vulto — Cingil-o, dos homens, o primeiro —, Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada Do morto ainda commanda a armada, Pulso sem corpo ao leme a guiar As naus no resto do fim do espaço: Que até ausente soube cercar A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas elles não O sabem, e dançam na solidão; E sombras disformes e descompostas, Indo perder-se nos horizontes, Galgam do valle pelas encostas Dos mudos montes.