Portuguese poem
O Tumulto
by Fernando Pessoa (1888–1935)
O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual ... Fazer filhos à razão prática, como os crentes enérgicos... Minha juventude perpétua De viver as coisas pelo lado das sensações e não das responsabilidades. (Álvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-avô, padre, que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas.) (Veio para Lisboa muito novo ...) A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar Mais do que ele se distingue do macaco. (Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e compreenda a substância do meu ser, Sim, admito-o, Mas o macaco já hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a substância do ser.)
Se alguma coisa foi por que é que não é Ser nao é ser?
As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente, Em outra maneira de ser? Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter? Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta, E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?