Versos Portuguese Fernando Pessoa Pecado Original

Portuguese poem

Pecado Original

by (1888–1935)

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Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? Será essa, se alguém a escrever, A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser. Somos todos quem nos supusemos. A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância? Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas Sobre o parapeito alto da janela de sacada, Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida? Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade; Na imaginação, e com alguma justiça; Na inteligência, e com alguma razão — Meu Deus! meu Deus! meu Deus! Quantos Césares fui! Quantos Césares fui! Quantos Césares fui!