Versos Portuguese Fernando Pessoa Quanto fui jaz. Quanto serei não sou

Portuguese poem

Quanto fui jaz. Quanto serei não sou

by (1888–1935)

Listen in the reader

Quanto fui jaz. Quanto serei não sou. No intervalo entre o que sou e estou, A natureza, exterior, tem Sol. Mas, se tem Sol, há Sol. Ao Sol me dou.

Não queiras, com submissa segurança, Ter saudade de ter esperança. Tem antes saudade de a não ter. Sê anónimo, súbito e criança.

Nada esperes, que nada salvo nada Obtém que[m] espera: é como quem à estrada Lance olhos de esperar que alguém lhe chegue Só porque a estrada é feita para andada.

Ninguém suporta o peso mau dos dias Salvo por interpostas alegrias. Bebe, que assim serás o intervalo Entre o que criarás e o que não crias.

Quantas vezes o mesmo poente alheio Sobre meu sonho, como um sonho, veio! Quantas vezes o tive por augusto! Tantas, tornado noite, perde o enleio.

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído Que ervas ou folhas trazem ao ouvido. É do vento, que é nada. Assim é o mundo: Um movimento regular de olvido.