Portuguese poem
Screvo meu livro à beira-magoa
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Screvo meu livro à beira-magua. Meu coração não tem que ter. Tenho meus olhos quentes de agua. Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar Meus dias vacuos enche e doura. Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Christo De a quem morreu o falso Deus, E a dispertar do mal que existo A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto, Sonho das eras portuguez, Tornar-me mais que o sopro incerto De um grande anceio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando, Fazer minha esperança amor? Da nevoa e da saudade quando? Quando, meu Sonho e meu Senhor?