Versos Portuguese Fernando Pessoa *Taciturno*

Portuguese poem

*Taciturno*

by (1888–1935)

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Ha Ouro marchetado em mim, a pedras raras, Ouro sinistro em sons de bronzes medievais-- Joia profunda a minha Alma a luzes caras, Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras, Capacetes de ferro esmagaram Princesas. Toda uma estirpe rial de herois d'Outras bravuras Em mim se despojou dos seus brazões e presas.

Heraldicas-luar sobre ímpetos de rubro, Humilhações a liz, desforços de brocado; Bazilicas de tédio, arnezes de crispado, Insignias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido Enferrujou--embalde a tentarão descer... Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer-- Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...

Percorro-me em salões sem janelas nem portas, Longas salas de trôno a espessas densidades, Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades, E os divans, em redór, ansias lassas, absortas...

Ha rôxos fins de Imperio em meu renunciar-- Caprichos de setim do meu desdem Astral... Ha exéquias de herois na minha dôr feudal-- E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...

Paris--Agosto de 1914