Portuguese poem
*Vi*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
O maestro sacode a batuta, E languida e triste a musica rompe...
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia Em que eu brincava ao pé d'um muro de quintal Atirando-lhe com uma bola que tinha d'um lado O deslisar d'um cão verde, e do outro lado Um cavallo azul a correr com um jockey amarello...
Prosegue a musica, e eis na minha infancia De repente entre mim e o maestro, muro branco, Vae e vem a bola, ora um cão verde, Ora um cavallo azul com um jockey amarello...
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello. (Tão rapida gira a bola entre mim e os musicos...)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella Atravessa o theatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarello e um cão verde E um cavallo azul que apparece por cima do muro Do meu quintal... E a musica atira com bolas Á minha infancia... E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavallos azues e jockeys amarellos...
Todo o theatro é um muro branco de musica Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello...
E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda, D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa Com orchestras a tocar musica, Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia...
E a musica cessa como um muro que desaba, A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos, E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto, Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro, E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo...
8 de Março de 1914.
FERNANDO PESSÔA.
Preço 30 centavos