Portuguese poem
_Abertura Do "Livro Da Vida"_
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Transcendencias nubloticas, metaphysicas raras, Modelei a minha Obra com minhas mãos avaras. Litanias liturgicas de febre de paixão, Crepusculos de fogo ardendo em sentimento, Columnas de Além-Sonho, arcos de commoção, Claustros de Archi-Tristeza aonde o Pensamento Vive longe do mundo, em funda adoração...
Castello esguio Sobre o rio Do Amôr. Armei-me cavalleiro, Quebrou-se minha lança de guerreiro No combate da Dôr.
Architectonicas theorias de Belleza, Transfigurações, resurreições, e a Natureza No fundo longo, sensitivo da emoção, Bysantinos jardins onde a Tarde agonisa, Fluidicos aromas em mystica ascenção, Emanações d'Amor que a alma divinisa Em Alma de outra Alma--eterna communhão...
Praia tão desconhecida Do mar da vida vivida Onde o luar nunca vem, De onde a nau da minha Alma Parte pela noite calma A caminho do Alêm.
E eis a grande rota seguida em Mim sómente, P'ra que parta do mundo e chegue até aos céus, E onde Tu e Eu iremos lentamente Da Vida para Deus.
Lisboa--1914.