Portuguese poem
O Crepúsculo da Tarde
by Francisco Otaviano (1825–1889)
Anão e servos, menestrel e bardos, o árabe narrador e as bailarinas desertaram das salas do banquete. Haydéa e seu amante, a sós, estavam, vendo o sol que em desmaio no ocidente bordava o céu de franjas cor-de-rosa.
Ave-Maria! estrela do viandante, tu conduzes ao pouso o peregrino que anda, longe dos seus, na terra estranha. Salve, estrela do mar; em ti se fitam olhos e coração do marinheiro que no oceano te saúda agora. Salve, rainha excelsa, Ave-Maria! Ei-la que chega a hora do teu culto, à tardinha, em céu meigo, à luz do ocaso!
Bendita seja est'hora tão querida, e o tempo, e o clima, e os sítios suspirados, onde eu gozava na manhã da vida o enlevo, - o santo enlevo, - deste instante! Soava ao longe, - bem me lembro ainda, - na velha torre o sino do mosteiro; subia ao céu em notas morredouras o harmonioso cântico da tarde; era tudo silêncio, - e só se ouvia a natureza a suspirar seus hinos de arroubo e fé, - de devoção e pasmo.
Hora do coração, do amor, das preces, Salve, Maria. Enlevo a ti minha alma, Como é formoso o oval de teu semblante! Amo teu rosto feiticeiro e belo, amo o doce recato de teus olhos, que se cravam na terra, enquanto adejam sobre tua puríssima cabeça cândidas asas de celeste anúncio! Será isto um painel da fantasia? Um quadro, um canto, uma legenda, um sonho? Não! somente me prostro ante a verdade.
Aprazem-se uns obscuros casuístas em criminar-me de ímpio. - Eles que venham ajoelhar-se e suplicar comigo... Veremos qual de nós melhor conhece o caminho do céu. - São meus altares as montanhas, as vagas do oceano, a terra, o ar, os astros, o universo, tudo o que emana da sublime Essência, de onde exalou-se, e aonde irá minh'alma.
Hora doce do trêmulo crepúsculo! quantas vezes errante, junto à praia, na solidão dos bosques de Ravena, que se alastram por onde antigamente flutuavam as ondas do Adriático, Bosques frondosos, para mim sagrados pelos graciosos contos do Boccácio, pelos versos de Dryden; - quantas vezes aí cismei aos arrebóis da tarde!
Tudo o que há de mais grato, a ti devemos, ó Héspero: - ao romeiro fatigado dás a hospedagem: - a cansado obreiro, a refeição da tarde; - ao passarinho, a asa da mãe; - ao boi, o aprisco: toda a paz que se goza em torno aos lares, o quente, o meigo aninho dos penates, descem contigo à hora do repouso, tu coas n'alma o doce da saudade; moves o coração, que a vez primeira sai da terra natal, deixa os amigos, e anda à mercê das ondas do oceano: enterneces, enfim, o peregrino ao som da torre, cuja voz sentida como que chora o dia moribundo.