Portuguese poem
VIII (O que não dera eu se…)
by Goethe (1749–1832)
O que não dera eu se conseguisse Saber quem foi aquelle senhor de hoje; Era tão bem par'cido; e de alto sangue De certo, que no rosto se lhe lia ; Nem se outro fosse a tanto se attrevera.
Entra. Devagarinho, bem de manso.
Deixa-me só, te peço.
Tal aceio Não é qualquer mulher que assim o guarda.
Crepusculo suave, sê bemvindo Tu que vagueas neste sanctuario ! Enche meu coração, pena amorosa, Que -do orvalho da esp'rança arfando vives! Como em torno de mim tudo respira Repouso, ordem, são contentamento ; Nesta pobreza, que abundancia immensa, Que bemaventurança neste carcere
Tu me recebe agora, que os passados, Em horas de tristeza ou de alegria, Em teus braços abertos acolheste ! Quantas vezes em volta deste throno Paternal, se juntou risonha chusma De creanças gentis. Aqui outr'ora, Pelos dons do Natal agradecida, Minha amada talvez, co'as rubicundas Faces da infancia, depozesse um beijo
Do avô na mão rugosa. Sinto, oh virgem, Teu espirito d'ordem e vigilancia Sussurrar junto a mim, que te ensinára, Com materno cuidado, os dias todos A estender sobre a meza o liso panno, E até a teus pés o chão de arêa Reluzente cobrir. Oh mão amada, Tens divino poder, fazes da choça Paraiso celeste. E aqui?
Eu tremo D'intensissimo gosto, horas inteiras Aqui passar quizera. Natureza, Aqui em doces sonhos tu formaste O anjo á terra vindo.
Não te conheço já. Cerca-me acaso Um encantado ambiente? O meu desejo Era facil prazer, e eis-me todo Em amorosos sonhos engolphado... Das impressões do ar á mercê 'stamos?
Depressa, vejo-a vir alli a baixo.
Vamo-nos, vamos, nunca mais cá torno.
Aqui tens um estojo assaz pesado Que fui buscar algures. Vae-o tu sempre Mettendo no armario. Em ella o vendo, Perde a cabeça; puz aqui cousinhas. Para vencer a outras mais difficeis. Creanças são creanças, brinco é brinco.
Não sei, talvez não deva....
Que perguntas? Talvez queiras guardar p'ra ti as joias? Nesse caso aconselho á paixão vossa, Que o tempo me poupe e mais trabalho. Quero crer que não és um avarento? Dou tratos ao miolo, ando a cançar-me, —
Vamos daqui depressa, vem comigo.— Só para conseguir que a pobre moça A vosso desejar se ageite prompto; E vós estaes ahi como se houvesseis De ir dar aula, e palpaveis vos surgissem Physica e Metaphysica deante! Anda dahi.
Está tão abafado, Tão quente aqui.
E todavia fóra
Não é tanto o calor. Não sei que tenho. Quem me dera que a mãe 'stivesse em casa. Sinto correr-me o corpo um calafrio... Uma creança sou, tola e medrosa.
Houve outr'ora um Rei em Thule, Até á morte constante; Uma taça de ouro fina. Lhe deixou morrendo a amante.
E nas ondas azuladas A taça de ouro lançou.
Como veiu aqui ter tão lindo estojo ? De ter fechado o armario 'stou bem certa. Maravilhoso é! Que estará dentro? É talvez um penhor sobre o qual hoje Deu minha mãe dinheiro. D'uma fita Aqui pende a chavinha. Abril-o quero. Que é isto, Deus do ceu! Não vi tal nunca! Um adereço com que mostrar-se pode Nos mais solemnes dias uma dona! Deixa ver o collar. Tanta riqueza De quem será? De quem tão bellas joias?
Se podessem ser. meus sequer os brincos! Em os pondo, pareço logo outra. Que te serve a belleza, pobre moça? É muito, mas aos homens que lh'importa;
Quasi que mostram dó quando nos gábam. Ao ouro tende e do ouro depende Tudo no mundo, tudo! Ai de nós pobres.