Versos Portuguese Goethe VII (Minha linda senhora, dá licença)

Portuguese poem

VII (Minha linda senhora, dá licença)

by (1749–1832)

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Minha linda senhora, dá licença Que para a acompanhar lhe offreça o braço?

Meu Deus, como é bonita a rapariga! Nunca vi cousa assim. É tão sisuda, Tão cheia de decencia, e ao mesmo tempo Um não sei que se lhe acha de travesso.

Dos labios o rubor, do rosto o brilho, Em quanto eu existir jamais esqueço, O modo com que os olhos poz em terra De meu peito no fundo impresso vive. E que tom tão altivo; é encantadora !

Escuta, has de alcançar-me aquella moça.

E qual?

A que ainda ha pouco ia passando.

Aquella ? vem agora do seu padre Que dos peccados todos lhe deu plena Absolvição. Atraz m'introduzira Do confessor. É um anjo de innocencia Que se foi confessar por cousa alguma ; Não me é dado exercer poder sobre ella.

E comtudo já passa dos quatorze.

Fallas como o famoso Hansliederlich, Que toda a linda flor p'ra si quizera. E pensa que não ha favor nem honra Que não possa colher; porém as cousas Não correm sempre assim.

Senhor pedante, Deixe-me em paz com seus moraes axiomas. Aqui lh'o digo claro, se inda hoje Em meus braços não dorme a linda moça, Á meia noite estamos separados.

Pensa bem no que pode ou não fazer-se. Quinze dias ao menos são precisos, Só para excogitar hora opportuna.

Se tivesse vagar umas seis horas, O auxilio do demo não pedia. P'ra seduzir a pobre creatura.

Fallaes como um francez, tão presumpçoso ;

Mas tende paciencia por quem sois, De que serve gosar já, de repente ? Está longe de ser tão grande o gosto Como quando primeiro de mil modos, Com bagatellas mil, o amorsinho Haveis disposto e bem affeiçoado, Como tantos romances nos ensinam.

Sem d'isso carecer tenho apetite.

Agora serio e sem mais brincadeira, Digo-vos uma vez por todas; nada Desta linda pequena se consegue De subito, de assalto não se leva; É mister empregar ardis, astucia.

Alguma cousa dá-me do thesouro Desse anjo, conduz-me onde repousa. Um lenço que tocasse o brando seio, Uma liga me dá, que lh'estreitasse O joelho gentil.

Para que vejas Que ao teu soffrer desejo ser propicio

E te quero ajudar, sem um momento Perder, hoje ao seu quarto vou levar-te.

Vel-a -hei ? será minha?

Não de certo. Ha de estar co'a visinha. No entanto, Na ventura porvir todo esp'rançado, Podereis á vontade regalar-vos Do ambiente que a cerca.

E é já? vamos?

Inda é cedo.

Procura-me um presente Que lhe possa levar.

Já dá presentes Ora bravo que tem victoria certa. Sei de muito logar onde ha thesouros

Enterrados ha tempos, vou passar-lhes Uma leve revista sem tardança.