Versos Portuguese Gonçalves Dias A Infância

Portuguese poem

A Infância

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Bello raio do sol da existencia, Meninice fagueira e gentil, Doce riso de pura innocencia Sempre adorne teu rosto infantil.

Sempre tenhas, anginho innocente, Quem se apresse em teus passos guiar, E uma voz que o teu somno acalente, E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jocundos Voz etherea te venha fallar, E visão d’outros céos, d’outros mundos, Venha amiga tua alma encantar.

Leda infancia gentil! e quem não te ama? Quem tão de pedra o coração não sente Aos teus encantos meigos mais tranquillo? Quem não sente memorias d’outras eras Travarem-lhe da mente ao recordar-se Aquelle gozo puro e suavissimo De vida, que jamais não tem logrado? Recordações de um mundo adormecido Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando, Como harpejos de musica longinqua! E a mente nos seus quadros embebida, Por magica illusão enfeitiçada, Como outr’ora, talvez sómente veja Na terra — um chão de flores estrellado, E nos céos — outro chão de flores vivas!

Afagada e bem vinda e querida Travessuras scismando infantis, Nos caminhos floridos da vida Vai mimosa, imprudente e feliz!

É sua vida um continuo festejo, Sonhos d’oiro só sabe sonhar, Toda clla um afan, um desejo D’outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna, Logo pranto começa a verter, E depois outro riso lhe torna, E depois outro pranto a correr.

Tão perto jaz a fonte da amargura, Da fonte do praser! — porém tão doces

Essas lagrimas são! — tão abundantes, Tão sem causa e sympathicas gotejão N’uma tez de carmim, n’um rosto bello! Quem as vè, que sorrindo as não enchuga? Mas não todo consumas o thesouro Unico e triste, que ao infeliz sobeja Nas horas do soffrer; no tempo amargo, No qual o rosto pallido se enruga, E os olhos seccos, aridos chammejão, Será talvez bem grato refrigerio Uma lagrima só, em que arrancada A força da afflicção dos seios d’alma. Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida, Como um río entre flores, se deslisa Macio, puro, recendendo aromas.

Bello raio do sol da existencia, Flor da vida, mimosa e gentil, Fonte pura de meiga innocencia, Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja, Quando vê sobre a veiga formosa

A menina travessa e ruidosa, Borboleta que alegre doudeja?

A menina é uma flor de poesia, Um composto de rosa e jasmim, Um sorriso que Deos alumia, Um amor de gentil serafim!

Folga e ri no começo da existencia, Borboleta gentil! a flor dos valles, Da noite á viração abrindo o calix, O puro orvalho da manhã te guarda; Inda perfumes dá, que te embriagão, Inda o sol quando aquece os vivos raios, Nas azas multicores scintillando, Com terno amor de pae, em torno esparge Pó subtil de rubins e de safiras. Folga e ri no começo da existencia, Humano serafim, que esse perfume São das azas do anjo, que s’impregnão Dos aromas do céo, quando atear-se, Roaz fogo de vida começando, Quanto havemos de Deos consome e apaga.

Porém tu, afagada e querida, Com requebros donosos, gentis, Vai contente caminho da vida, Bello anginho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada, Quando a possas um dia escutar, Hade ser como rota grinalda, Que perfumes deixou de exhalar!

E esta mão talvez seja sem vida, E este peito talvez sem calor, E memoria apagada e sumida, Talvez seja a do triste cantor!