Portuguese poem
A Noite
Noite, melhor que o quem, dia não te ama! Quem não vive mais brando em teo regaço! Filinto.
O peito aspira sofrego ar de vida, Que da terra não é, qual flôr nocturna, Que bebe orvalho, elle se embebe e ensópa Em extasis de amor: Mais direitas então, mais puras devem, Calada a natureza, a terra e os homens, Subir as orações aos pés do Eterno Para afagar-lhe o throno!
Assim é que no templo magestoso Rebôa pela nave o som mais alto, Quando o sacro instrumento quebra a augusta Mudez do sanctuario: Assim é que o incenso mais direito Se eleva na capella que o resguarda, E na chave da abobada topando, Como um docél, se expraia.
Eu amo a noite solitaria e muda; Como formosa dona em regios paços, Trajando ao mesmo tempo luto e galas Magestosa e sentida; Se no dó attentais, de que se enluta, Certo sentis pezar de a ver tão triste; Se o rosto lhe fitais, sentis deleite De a ver tão bella e grave!
Considerai porêm o nobre aspecto, E o pórte, e o garbo senhoril e altivo, E as fallas poucas, e o olhar sob’rano, E a fronte levantada: No silencio que a véste, adorna e honra, Conhecendo por fim quanto ella é grande, Com voz humilde a saudareis rainha, Curvado e respeitoso.
Eu amo a noite solitaria e muda, Quando, bem como em salas de banquete Mil tochas aromaticas ardendo, Girão fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ella diffunde, E o rorante frescor cahindo em per’las, E a magica mudez que tanto falla, E as sombras transparentes!
Oh! quando sobre a terra ella se estende, Como em praia arenosa mansa vaga; Ou quando, como a flôr d’entre o seo musgo, A aurora desabrocha; Mais forte e pura a voz humana sôa, E mais se accórda ao hymno harmonioso, Que a natureza sem cessar repete, E Deos gostoso escuta.