Versos Portuguese Gonçalves Dias O Canto do Índio

Portuguese poem

O Canto do Índio

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Quando o sol vae dentro d’agoa Seos ardores sepultar, Quando os passaros nos bosques Principião a trinar;

Eu a vi, que se banhava... Era bella, ó Deoses, bella, Como a fonte cristalina, Como luz de meiga estrella.

Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa, Porque cu te visse assim, como eu te via, Calcára agros espinhos sem queixar-me Que eu fôra, por te vêr, bem venturoso.

O tacápe fatal em terra estranha Sobre mim sem temor veria erguido; Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto Nas agoas, como a lua, retratado.

Eis que os scos loiros cabellos Pelas agoas se espalhavão, Pelas agoas, que de vel-os Tão loiros se enamoravão.

Ella erguia o collo eburneo Porque melhor os colhesse; Niveo collo, que eu te visse, Que eu de amores não morresse!

Passára a vida inteira a contemplar-te, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa, Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto, Sem que os sons do Boré que incita á guerra Me infiltrasse o valor que m’has roubado, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.

Ás vezes, quando um surriso Os labios seos entreabria, Era bella, oh! mais que a aurora Quando a raiar principia.

Outra vez — d’entre os seos labios Uma voz se desprendia; Terna voz, cheia de encantos, Que eu entender não podia.

Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma Sentir d’amores tão sereno e fundo, Que a vida me prendeo, vontade e tudo. Ah! que não queiras tu viver commigo, Ó Virgem dos Christãos — Virgem formosa!

Sobre a areia — já mais tarde Ella surgio toda núa; Onde ha, ó Virgem, na terra Formosura como a tua?

Bem como gotas de orvalho Nas folhas de flôr mimosa, Do sco corpo a onda em fios Se deslisava amorosa.

Ah! que não queiras tu vir ser rainha Aqui dos meos irmãos, como eu rei delles! Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa, Odeio tanto os teos, como eu te adóro;

Mas queiras tu ser minha, que eu prometto Vencer por teo amor meo odio antigo, Trocar a maça do poder por ferros E ser — por te gosar escravo delles.