Versos Portuguese Gonçalves Dias O Desterro de um Pobre Velho

Portuguese poem

O Desterro de um Pobre Velho

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A aurora vem despontando, Não tarda o sol a raiar: Cantam aves, - a natura Já começa a respirar.

Bem mansa na branca areia Onda queixosa murmura, Bem mansa aragem fagueira Entre a folhagem sussurra.

É hora cheia de encantos, E hora cheia de amor; A relva brilha enfeitada, Mais fresca se mostra a flor.

Esbelta joga a fragata, Como um corcel a nitrir; Suspensa a amarra tem presa, Suspensa, que vai partir.

Em demanda da fragata, Leve barco vem vogando; Nele um velho cujas faces Mudo choro está cortando.

Quem era o velho tão nobre, Que chorava, Por assim deixar seus lares, Que deixava?

"Ancião, por que te ausentas? Corres tu trás de ventura? Louco! a morte já vem perto. Tens aberta a sepultura.

"Louco velho, já não sentes Bater frouxo o coração? . Oh! que o sente! - É lei d'exílio A que o leva em tal sazão!

"Não ver mais a cara pátria, Não ver mais o que deixava, Não ver nem filhos, nem filhas, Nem o casal, que habitava!...

"Oh! que é má pena de morte, A pena de proscrição; Traz dores que martirizam, Negra dor de coração!

"Pobre velho! - longe, longe Vás sustento mendigar; Tens de sofrer novas dores, Novos males que penar.

"Não t'há de valer a idade, Nem a dor tamanho e nobre; Tens de tragar vis afrontas, - Insultos que sofre o pobre!

"Nada acharás no degredo, Que fale dos filhos teus; Ninguém sente a dor do pobre,,, Só te fica a mão de Deus.

"O sol, que além vês raiando Entre nuvens de carmim, Noutros climas, noutras terras Não verás raiar assim.

"Não verás a rocha erguida, Onde t'ias assentar; Nem o som bem conhecido Do teu sino hás de escutar.

"Há de cair sobre as ondas O pranto do teu sofrer, E nesse abismo salgado, Salgado se há de perder."

Já chegou junto à fragata, Já na escada de apoiou, Já com voz intercortada Último adeus soluçou.

Canta o nauta, e solta as velas Ao vento que o vai guiar; E a fragata mui veleira Vai fugindo sobre o mar.

E o velho sempre em silêncio A calva testa dobrou, E pranto mais abundante O rosto senil cortou.

Inda se vê branca a vela Do navio, que partiu; Mais além - inda se avista! Mais além - já se sumiu!