Versos Portuguese Gonçalves Dias O Gigante de Pedra

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O Gigante de Pedra

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Gigante orgulhoso de fero semblante, N’um leito de pedra lá jaz a dormir! Em duro granito repousa o gigante Que os raios sómente podérão fundir.

Dormido atalaia no serro empinado Devêra cuidoso, sanhudo velar; O raio passando o deixou fulminado, E á aurora que surge não hade acordar!

Co’os braços no peito crusados nervosos, Mais alto que as nuvens, os céos a encarar, Seu corpo se estende por montes fragosos, Seus pés sobranceiros se arrojão do mar!

De lavas ardentes seus membros fundidos Avultão immensos: só Deos poderá Rebelde lançal-o dos montes erguidos, Curvados ao peso que sobre lhes ’stá.

E o céo, e as estrellas, e os astros fulgentes São velas, são tochas, são vivos brandões, E o branco sudario são nevoas algentes, E o crepe que o cobre são negros bulcões.

Da noite que surge no manto fagueiro Quiz Deos que se erguesse, de junto a seus pés, A cruz sempre viva do sul no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moysés.

Perfumão-no odores que as flores exhalão, Bafejão-no carmes de um bymno de amor Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão, Dos ventos que rugem, do mar em furor,

E lá na montanha, deitado dormido Campeia o gigante, — nem póde acordar! Crusados os braços de ferro fundido, E a fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!

Banha o sol os horisontes, Trepa os castellos dos céos, Aclara serras e fontes, Vigia os dominios seus: Já descahe p’ra o occidente, E em globo de fogo ardente Vai-se no mar esconder; E lá campeia o gigante, Sem destorcer o semblante, Immovel, mudo, a jazer!

Vem a noite após o dia, Vem o silencio, o frescor, E a brisa leve e macia Que lhe suspira ao redor; E da noite entre os negrores Das estrellas os fulgores Brilhão na face do mar:

Brilha a lua scintillante, E sempre mudo o gigante, Immovel, sem acordar!

Depois outro sol desponta, E outra noite tambem, Outra lua que aos céos monta, Outro sol que após lhe vem: Após um dia outro dia, Noite após noite sombria, Após a luz o bulcão, E sempre o duro gigante, Immovel, mudo, constante Na calma e na cerração!

Corre o tempo fugidio, Vem das aguas a estação, Após ella o quente estio E ainda após o verão: Crescem folhas, vingão flores, Entre galas e verdores Sazonão-se fructos mil; Cobrem-se os prados de relva Murmura o vento na selva Azulão-se os céos de anil!

Tornão prados a despir-se, Tornão flores a murchar, Tornão de novo a vestir-se, Tornão depois a seccar; E como gota filtrada De uma abobeda escavada Sempre, incessante a cahir, Tombão as horas e os dias, Como phantasmas sombrias, Nos abysmos do porvir!

E no feretro de montes Inconcusso, immovel, fito, Escurece os horisontes O gigante de granito: Com soberba indifferença Sente extincta a antiga crença Dos Tamoyos, dos Pagés, Nem vê que duras desgraças, Que lutas de novas raças Se lhe atropellão aos pés!

E lá na montanha deitado dormido Campeia o gigante! — nem pode acordar!

Crusados os braços de ferro fundido, E a fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!...

Vio primeiro os incolas Robustos das florestas, Batendo os arcos rigidos Traçando homereas festas, Á luz dos fogos rutilos, Aos sons dos murmuré! E em Guanabara esplendida As danças dos guerreiros. E o guáu cadente e vário Dos moços prasenteiros, E os cantos da victoria Tangidos no boré.

E das igaras concavas A frota aparelhada, Vistosa e formosissima Cortando a undosa estrada, Sabendo mas que fragcis Os ventos contrastar:

E a caça leda e rapida Por serras, por devesas, E os cantos da janubia Junto ás lenhas accesas, Quando o tapuya misero Scos feitos vai cantar!

E o germen da discordia Crescendo em duras brigas, Ceifando os brios rusticos Das tribus sempre amigas, — Tamoy a raça antigua, Feroz Tapinambá. La vai a gente improvida, Nação vencida, imbelle, Buscando as matas invias Donde outra tribu a expelle; Jaz o pagé sem gloria, Sem gloria o maracá.

Depois em náos flammivomas Um troço hardido e forte, Cobrindo os campos humidos De fumo, e sangue, e morte,

Traz dos reparos horridos D’altissimo pavez: E do sangrento pelago Em miseras ruinas Surgir galhardas, limpidas As portuguezas quinas, Murchos os lises candidos Do impavido gaulez!

Mudarão-se os tempos e a face da terra, Cidades alastrão o antigo paul; Mas inda o gigante que dorme na serra Se abraça ao immenso cruseiro do sul.

Nas duras montanhas os membros gelados Talhados a golpes de ignoto buril, Descança, oh gigante, que encerras os fados, Que os terminos guardas do vasto Brasil

Porém se algum dia fortuna inconstante Poder-nos a crença e a patria acabar, Arroja-te ás ondas, oh duro gigante, Inunda estes montes, desloca este mar!