Portuguese poem
Retratação
Perdoa as duras frases que me ouviste: Vê que inda sangra o coração ferido, Vê que inda luta moribundo em ancias Entre as garras da morte.
Sim, eu devera moderar meu pranto, Soffrear minhas iras vingativas, Deixar que as minhas lagrimas corressem D’entro do peito em chaga.
Sim, eu devera confranger meus labios, Mordel-os té que o sangue espadanasse, Afogar na garganta a ultriz sentença, Apagal-a em meu sangue.
Sim, eu devera comprimir meu peito Conter meu coração, que não pulsasse, Apagado volcão, que inda fumega, Que faz, que jorra cinzas?
Que m’importava a mim teu fingimento, Se uma hora fui feliz quando te amava, Se ideei breve sonho de venturas Dormido em teu regaço;
Luz mimosa de amor que le apagaste, Ou gota pura de crystal luzente Filtrando os poros de uma rocha a custo, Cahida em negro abysmo!
Devera pois meu pranto borrifar-te Amigo e bemfasejo, como aljofar De branco orvalho em perolas tornado N’um calice de flor:
Não converter-se em pedras de saraiva, Em chuva de graniso fulminante, Que em chão de morte as petalas viçosas Desfolhasse entre-abertas.
Feliz o doce poeta, Cuja lyra sonorosa Resoa como a queixosa Trepida fonte a correr; Que só tem palavras meigas, Brandos ais, brandos accentos, Cuja dôr, cujos tormentos Sabe-os no peito esconder!
Feliz o doce poeta Que não andou em procura De terrena formosura, Nem as graças lhe notou! Que lhe não deu sua lyra, Que lhe não deu seus cantares, Que lhe não deu seus pesares, Nem junto della quedou!
Antes na mente escaldada Forma um composto divino De algum ente peregrino De algum dos filhos dos céos; E ante essa imagem creada Que vê sempre noite e dia, Dobra as leis da phantasia, Accurva os desejos seus.
É d’ella quando se carpe, É d’ella quando suspira, É d’ella quando na lyra Entoa um canto feliz: D’ella acordado ou dormido, D’ella na vida ou na morte, Tenha alegre ou triste sorte, Seja Laura ou Beatriz!
Que talvez a doce imagem, A scismada phantasia Hade o poeta algum dia Junto de Deos encontrar; E que havendo-a produzido Antes do mundo formado Dê-lhe um sonhar acordado Por um viver a sonhar!