Versos Portuguese Gottfried August Bürger Leonor

Portuguese poem

Leonor

by (1747–1794)

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Ralada de ruins sonhos Já desperta está Leonor, E 'inda agora os céus d'oriente Da manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?―ella exclama― Ou trahiste a pobre amante? Se vives, porque retardas De te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico Tempo havia que partíra Para a batalha de Praga, E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei De guerras, emfim, cansados, Depondo os animos feros, De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam Ambas as hostes folgando. Cingem frentes ramos verdes; Vem atabales rufando.

E por montes e por valles Velhos e moços chegavam, Dando brados de alegria, A encontrar os que voltavam.

―«Boa vinda! Adeus!―diziam As filhas, noivas, e esposas. E Leonor? Nenhum dos vindos Lhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta; Por qual estrada viria. Vão trabalho; vans perguntas: Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos... Em furioso devaneio, Ei-la arranca as negras tranças; Fere crú o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella: ―«Valha-me Deus!―lhe bradou.― Minha filha, pois que é isso?!»― E entre os braços a apertou.

―«Minha mãe, perdeu-se tudo! O mundo, tudo perdi: De nada Deus se condoe... Oh dor, oh pobre de mi!»―

―«Ai! Jesus venha á minha alma! Filha, um padre-nosso resa. Deus é pae: sempre nos ouve: Nunca a humana dor despreza.»―

―«Minha mãe, inutil crença! Que bens me tem feito Deus? Padre-nossos!.. padre-nossos!.. Que importam resas aos ceus?»―

―«Ai! Jesus venha á minha alma! Pois não é quem resa ouvido? Busca da igreja o consolo Verás teu pesar vencido.»―

―«Mãe, oh mãe, esta amargura Nenhum sacramento adoça: Não sei nenhum sacramento, Que aos mortos dar vida possa.»―

―«Filha, quem sabe se, ingrato, Elle ás promessas faltou; E lá na remota Hungria Novo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona, Do crime o premio terá: Do ultimo trance na angustia O remorso o punirá.»―

―«Morreu-me, oh mãe, a esperança. Perdido... tudo é perdido! Morrer, tambem, só me resta. Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente! Manda a noite e os seus terrores... Deus, oh Deus, que nunca escutas O gemer de humanas dores.»―

―«Meu Senhor! A desditosa Não pensa o que a lingua exprime. Não julgues a filha tua: Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha: Cogita no goso eterno, No sangue que te remiu, E nos tormentos do inferno.»―

–«O que é goso eterno, oh mãe, E o inferno em que consiste? Com Guilherme ha goso eterno, Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo, Se troque em nocturno horror; Sem elle, no céu, na terra Só conheço acerba dor!»–

Assim no sangue e na mente Furia insana lhe fervia: Cruel chamando ao Senhor, Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente Até que o céu se estrellava, As mãos, louca, retorcia, O brando seio pisava.

Porém ouçamos!.. A terra Pisa um cavallo lá fóra!.. E pelos degraus da escada Tinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola Pancadas que mal feriram... E através das portas, claro, Estas palavras se ouviram:

―«Oh lá, querida, abre a porta. Dormes? Estás acordada? Folgas em riso? Pranteias? De mim és 'inda lembrada?»―

―«Guilherme, tu?! Na alta noite? Tenho velado e gemido. Quanto padeci!.. Mas, d'onde Até 'qui tens tu corrido?!»―

―«Nós montamos á meia-noite Só. Vim tarde, mas ligeiro, Desde a Bohemia, e comigo Levar-te-hei, por derradeiro.»―

―«Oh meu querido Guilherme, Vem depressa: aqui te abriga Entre meus braços; que o vento Do bosque as crinas fustiga.»―

―«Rugir o deixa nos matos. Sibilla? Sibille embora! Não paro... que o meu ginete Escarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial Dista cem milhas d'aqui. Sobraça as roupas... vem... salta No murzelo, atrás de mi.»―

«Além cem milhas, me queres Hoje ao thalamo guiar? Ouve... o relogio ainda soa: Doze vezes fere o ar.»―

―«Olha em roda! A lua é clara: Nós e os mortos bem corremos. Aposto eu que n'um instante Ao leito nupcial iremos?»―

―«Mas dize-me, onde é que habitas? Como é o leito do noivado?― «Longe, quedo, fresco, breve: De oito taboas é formado.»―

―«Para dous?―«Para nós ambos. Sobraça as roupas: vem cá. Os convidados esperam: O quarto patente está.»―

Sobraçada a roupa, a bella Para o ginete saltou, E ao seu leal cavalleiro Co' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida. Ei-los vão, á fula-fula! Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda, Ante seus olhos se escoam Prado e selva, e do galope Sob a ponte os sons ecchoam!

―«Tremes, cara? A lua é pura. Depressa o morto andar usa. Tens medo de mortos?―«Não. Mas delles falar se escusa.»―

―«Que sons e cantos são estes? O corvo alli remoinha! Sons de sino? Hymnos de morte? É morto que se avizinha!»―

Era de feito um saimento, Que andas e esquife levava: Aos silvos de cobra em pégo Seu canto se assemelhava.

―«Um enterro á meia-noite, Com psalmos e com lamento, E eu a minha noiva levo Ao sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o coro, O ephitalamio entoai-nos; Vinde, abbade, e antes que entremos No leito, a bençam lançae-nos.»―

Cala o som e o canto: a tumba Some-se: finda o clamor A seu mando; e o tropel voa Na pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida Soa. Vão á fula-fula. Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem Montes, bosques, matagaes! Como á dextra e esquerda fogem Cidades, villas, casaes!

―«Tremes, cara? A lua é pura. Depressa o morto usa andar. Temes os mortos, querida?»― ―«Ai, deixa-os lá repousar!»―

―«Olha! Ao redor de uma forca Dançar em tropel não vês Aereos corpos, que alvejam Da luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui! Birbantes, acompanhai-me! Vinde. A dança do noivado Juncto do leito dançae-me.»―

E os vultos vem após logo, Ruído immenso fazendo, Como o furacão nas folhas Seccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida Ei-los vão, á fula-fula. Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece Quanto o luar allumia; Para trás suas estrellas Sumir o céu parecia.

―«Tremes, cara? A lua é pura. Depressa o morto andar usa. Temes os mortos, querida?― ―«Ai, delles falar se escusa!»―

―«Murzelo, o gallo ouvír creio! Breve a areia ha-de correr... Murzelo, avia-te, voa; Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda: Ao leito nupcial chegámos: Ligeiro os mortos caminham: A méta final tocámos.»―

D'uma porta ás grades ferreas Á rédea solta chegaram, E de fragil vara ao toque Ferrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves: A corrida, emfim, parára Sobre campas. Os moimentos Alvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro Cáe a armadura lustrosa Em negro pó impalpavel, Qual de isca fuliginosa.

Sua cabeça era um craneo Branco-pallido, escarnado: Nas mãos tem fouce e ampulheta, Triste adorno de finado.

Alça-se e arqueja o ginete: Igneas faiscas lançou, E debaixo de seus pés Abriu-se a terra, e o tragou.

Dos covaes surgem phantasmas: Feio urrar os ares corta: Bate incerto o coração Da donzella semimorta.

Ao redor danças de espectros Em remoinho passavam: Canto de medonhas vozes Era o canto que cantavam:

«Aflliges-te? Oh, tem paciencia! Não fosses com Deus audaz. Teu corpo pertence á terra: Á tua alma o céu dê paz.»―