Versos Portuguese Gottfried August Bürger O Caçador Feroz

Portuguese poem

O Caçador Feroz

by (1747–1794)

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Sua buzina tocára O conde, altivo senhor: «De pé, de cavallo, álerta!― Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha: Pula e parte; e a turba após. Ei-los vão! Quem era o conde? Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças, Por campinas cultivadas, Voam rapidos. Resoam Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo Em luz as veigas banhava, E do zimborio do templo O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!―convocando á missa, Tangia o sagrado sino; E involto nos sons de um orgam, Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam; E a turba chegára lá. Da direita um cavalleiro, E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve Alvo, guiava o primeiro; O segundo, á rédea solta, Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram Creio certo adivinha-lo, Bem que ainda com certeza Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro Fulgia o rosto formoso; Porém no olhar do da esquerda Fulgor havia horroroso.

―«Bem vindos sois, cavalleiros; Bem vindos á montaria! Qual prazer, no céu, na terra, Ao nosso se igualaria!―

Assim disse o conde, e rija Palmada na côxa deu. Atirando pelos ares A grande altura o chapeu.

―«O som da tua buzina― Tornou logo o da direita― Nem aos canticos do côro Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera! Atrás te cumpre voltar. Contra ti a ira celeste Não queiras desafiar.»―

―«Nobre conde monteae― Prestes o outro atalhou― Que importa a bulha do côro, E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo: Que para a relé foi feito. Não são palavras sandías Das que merecem respeito.»―

―«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda, Um heroe és quanto a mim. Só padre-nossos empecem A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas Com o montear, sandeu? Se medo queres metter-me, Falhou o calculo teu.―

Disse o conde. Ávante correm: Vão por campinas e outeiros. Sempre da direita e esquerda Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo Branco transpõe a assomada, Tendo de pontas galhosas A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina Com mais alento assoprou, E tudo, a pé, a cavallo, Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante, Ora dos que de trás vão, Um ou outro rebentado Fica no meio do chão.

E o conde:―Cahem? No inferno Baqueiar podesseis vós! Os que desalentam fiquem: Sem elles bem vamos nós.―

N'uma seara guarida, Fugindo, o cervo buscou: O pobre dono do campo, Triste, ao conde se chegou:

―«Meu bom senhor―clamou elle― Compaixão, meu bom senhor! Ah, poupae mesquinhos fructos De um abundante suor.―

Da direita o cavalleiro O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda Á maldade perpetrar, Desprezou o da direita Para o maldicto o enredar.

―«Fóra cão!―ao camponez Grita o conde esbravejando― Quando não, com mil diabos, Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute Pelas orelhas chegae-lhe; E que sou fiel ás juras Dessa maneira provae-lhe.»–

Dicto e feito. O conde salta Por cima os vallos fronteiros; E atrás delle, estrepitando, Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda, Pisa e destroe a seara; Que ninguem do lavrador Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado, Que já bem perto sentia, O cervo os crueis intentos, Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles, Perseguido e não tomado, Manhoso se foi metter Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque, Saindo do bosque ao claro, Seguiram-no os cães, e em breve Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor, Por seu rebanho temendo, Por terra se arremessou Aos pés do conde, tremendo.

―«Deixae meu pobre rebanho; Senhor, tende dó de mi: De muitas tristes viuvas O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas Tem das rezes uma só: Eis toda a sua riqueza: Senhor, tende dellas dó.»―

Da direita o cavalleiro O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde Sempre atiçava o da esquerda, E elle, o bom ludibriando, Corria á ultima perda.

―«Cão! A mim oppôr-te queres? As contas vou-te eu fazer. Quem me déra entre essas vaccas Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave Prazer do coração meu Montear-vos, mais que fosse Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante! Cães, avança! csê! perdido!― E os cães no que acham mais perto Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra Cái em seu sangue banhado, E sanguento o gado fica Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo O veado, que fugia Cada vez menos ligeiro, N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue, Perdida a respiração, Do bosque em meio salvou-se No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel: Estala o açoute incessante: Soam buzinas; retinem Os gritos de «abóca! ávante!»

O solitario piedoso Da cabana então saíu, E ao conde, com brando gesto, Taes palavras dirigiu:

―«Senhor, deixa teus intentos, E o sacro asylo venera: A creatura ao céu se queixa; Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde, Cede pela ultima vez; Quando não, na perdição, Certo, abysmado te vês.»–

Cuidadoso o da direita Ao conde correu então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando Nelle o animo damnado, Do bom apesar do aviso, Ai, do mau foi enganado!

–«Perdição?! Disso me rio, Não cuideis que eu tenha susto. No terceiro céu que fôra Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina? Vae-te prégar ao deserto. Teus sermões a montaria Não farão falhar, por certo.―

Assim disse o conde. O açoute Sacode; as buzinas soam. ―«Csê! abóca!..―Ui! de diante Homem e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem: Sons e gritos de caçada Se esvaecem de repente Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda: Tóca a buzina... não soa: Grita... em vão: nada ouve: o açoute Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado O seu cavallo esporeia... Nem para trás voltar póde, Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno: Cada vez mais de ennegrece: Qual sepulchro fica: ao longe Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão! Que era o que dizia a voz? Era a sentença do conde, Sentença medonha e atroz.

–«Genio infernal, atrevido Contra Deus, homens e feras! Das creaturas os gemidos Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos Alto pedem punição, Onde da vingança o facho Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros Do inferno te vão seguir, Para que sejas exemplo Aos tyrannos do porvir!»–

Qual d'aurora boreal, Flavo pallido fulgor Tingiu então na floresta Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo, Gelado o conde ficou; Trépida angustia dos ossos Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente Contra elle arroja o terror: Pelas costas o persegue O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge... Da terra vai-se elevando Negra agigantada mão, Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte, Ai, quer o conde prender!.. Elle atrás o rosto volta; Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra Verde, azul, vermelho fogo: Delle um mar rodeia o conde: Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos Sáem mil mastins raivosos, Que, pelo averno açodados, Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge: Por montes, por campos vai, Do seio arrancando a espaços Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo Atrás delle ruge o inferno, De dia do orbe no centro, De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada, Por mais que ávante corresse, Sem que dos horridos monstros Os olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi Do tropel desenfreiado, A qual até nossos dias Tão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante As horas da noite escura, Ainda ao dissoluto causa Do medo o horror e amargura

De bastantes caçadores Podia a boca dize-lo, Se antes não lhes conviesse Calado comsigo te-lo.

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