Portuguese poem
Os jardins — Os Jardins, Poema
by Jacques Delille (1738–1813)
Eu cantava os jardins, vergeis, e bosques, Eis sólta vezes tres Belona o grito, Eis dos paternos Lares arrancado, Vôa o Francez Guerreiro a estranhos mares, E de Venus, Mavorte as selvas deixa. Vós, á Paz innocente affeiçoados, Deoses dos Campos, não temais a guerra, Quer o grande Luiz não destruir-vos, Mas ao longe estender o imperio vosso; Quer que logre tranquillo o que semêa Hum Povo amigo longamente oppresso. E vós, Mancebos, que outro Mundo admira, Se por cima de tumidas voragens, A York o vosso ardor seguir não posso, Para quando volteis aperfeiçoa Jardins a Musa minha. Ordeno ás flores Que para as frontes vossas vão crescendo. Aprompto para vós de myrto as croas, O murmureo das agoas vos preparo, E gramineo tapiz, e asylo umbroso. Sentados molemente, ao Lethes dando Fadigas marciais, direis a gloria Das nossas forças bélicas, e emtanto Entre esperanças, e temor suspensos, Confundiráõ, tremendo, os filhos vossos Co' a presença do prigo a imagem delle. Amador dos jardins, eia, acabemos De pulir estes placidos abrigos. Infecundo areal, e secco, e triste, Nelles o dia reflectindo outr'hora, Importunava os pés, cansava os olhos. Tudo era ardente, e nu; mas Inglaterra Nos ensinou com que arte o chão se veste, Na relva cuida, pois, que os campos brotão. O regador na dextra, ou nella a fouce, Lhes mate as sedes, lhes tosquie as tranças. As leivas o cylindro pize, aplane; Sempre, escolhidas bem, bem apertadas, Bem libertas da erva usurpadora, Qual macia lanugem finas sejão; Repare-se-lhe ás vezes a velhice; Mas, comtudo, aos lugares não remotos Se reserve este luxo de verdura: Do resto se componhão ricos pastos, E sómente os cultivem teus rebanhos. Terás dest'arte numerosas crias, Os Campos adubio, os olhos quadros. Não te envergonhe, pois, (e grite embora O orgulho) não defendas que em teus parques Entre a Vacca fecunda, o Boi tardio: Nem deshonrão teus parques, nem meus versos. Muito pouco he, porém, crear sómente Esses tapizes vastos, e viçosos: Cumpre que saibas escolher-lhe as formas. Longe a monotonia, ah! longe delles: Em quadrada feição, feição redonda Tristemente opprimidos os não quero. Hum ar de liberdade he seu primeiro, Gracioso attractivo: ora nos bosques, Cuja sombra os abraça, elles se escondão Com visos de mysterio, ora esses mesmos Bosques venhão buscallos. Esta a forma Da campestre alcatifa, pura, e simples, Amas o bello? A Natureza imita, Que esmalta os prados de opulentas cores: Dá-te pressa; os jardins te pedem flores. Flores mimosas, candidas boninas, Por vós he mais gentil a Natureza. Nos quadros por modelo a arte vos toma; De terno coração sois dons singelos, Que arrisca Amor, e que a Amizade offrece. Em doirada madeixa, em niveo seio Requinta-se comvosco a formosura; Que a Victoria adorneis permitte o Loiro, Do virgineo pudor tambem sois premio. O mesmo, o mesmo Altar, onde repousa A Grandeza de hum Deos, na Primavera Com vossas oblações se aromatiza, E a Religião, sorrindo-se, as acolhe; Mas tendes nos jardins o domicilio. Do Sol, da Aurora vinde, pois, oh filhas, Decorar o theatro a nossos campos. Comtudo, não cuideis que, insano Amante, Em vez de vos travar, em vez de unir-vos Em brandos, amorosos ramilhetes, De canteiro em canteiro, attento espere De cada nova flor o nascimento, E lhe espie o matiz, lhe observe as côres. Sei que em Harlem ha curiosos tristes, Que em seus jardins co'as flores vão fechar-se, Que, por ver hum rainunculo, despertão Antes d'alva, e que adorão, qual prodigio, Anémona exquisita, ou que, invejando De hum rival o segredo, a peso de oiro Comprão de hum cravo as manchas. Deixa aos loucos Seu maniaco amor: possuão, gozem Embora quaes ciosos, quaes avaros. Sem de arte caprichosa as leis seguirdes, Vós, dos olhos prazer, do campo adorno, Flores, pintai a superficie á Terra; Mas a vossa beleza, o mimo vosso Entre curtos limites não se estreitem. Em toda a parte esses thesoiros brilhem: Ora aos tapizes a verdura esmaltem, Ora de hum lado, e d'outro enfeitem ruas; Em mesclados festões cercai ramadas, Agoas orlai em lucidos Meandros, Ou comvosco estes muros se alcatifem, Ou, querendo escolher vossos perfumes, Gyre, indecisa, no açafate a abelha. Seguindo-vos Rapin nas quadras todas, Nenhum matiz, ou nome vosso esqueça; A tão frias, cansadas miudezas Oppõem-se o Deos do gosto. Mas quem póde Negar o obsequio, a preferencia á rosa, Á rosa, de que Venus bosques tece, Croas a Primavera, Amor seus mimos? Á flor de Anacreonte, á flor que Horacio Nos dias festivais engrinaldava? Mas tão risonho objecto em demasia Apraz aos meus pinceis, cujo destino He quadros desenhar mais vigorosos. Oh vós, de que eu trilhava o chão florido, Bosquesinhos, adeos, adeos, oh prados. Attrahe minha attenção o informe aspecto Dos rochedos sem regra desparzidos. Foi sua alta rudeza em outros tempos Banida dos Jardins, onde reinava A inérte, semsabor monotonia. Mas depois que o Pintor, leis dando nelles, Contra acanhado Artifice restaura Totalmente o seu jus, emfim se atrevem A apossar-se os jardins destes effeitos. Por mais graças, porém, que venha dellas, Se estas rígidas massas magestosas Não offrece o terreno, então debalde, Presumpçosa Rival da Natureza, A Arte em falsas imagens se apurara. Do cume dos Rochedos verdadeiros, Da Mãi universal morada inculta, Ella escarnece de affectadas penhas, Misero aborto de fadiga inutil. Aos Campos de Midléton, ás Montanhas De Dovedale, te acompanho os passos, A ellas, Whateli, comtigo subo. Que aprazivel terror me assenhorêa! Todos esses rochedos, variando Os cimos colossais, arremessados Aqui aos Ceos, alli para os abysmos, Hum por outro amparados, hum sobre outro, E no ar ousadamente alguns suspensos; Este em arcada, em torre afeiçoado, Aquelle pelo pórtico sombrio Deixando perceber ao longe o Polo; Além mananciais, aqui regatos De limpida corrente, alegre, e mansa, Tudo, ah! tudo no espirito revolve Os mágicos retiros, que os Poetas Cantárão, fabulando. Oh quão ditoso Serás se teus jardins afformosêas Com estas grandes, alterosas vistas! Mas para que a teu quadro bem se ajustem, Contra a tôsca energia dos rochedos Cumpre de encantador ter a eficacia. O encantador he a arte, o encanto os bosques; Ella falla, os rochedos eis se assombrão, E como que os enfuna a pompa estranha. Porém, sua aridez austera ornando, Sagaz diversifica os teus plantios. Ao cobiçoso espectador offrece Das formas, e das côres os contrastes; Saião por entre as arvores a espaços Os mais bellos rochedos: interrompe Summa igualdade, esconde, ou patentêa! Variem-se co'as arvores as róchas, As arvores co'as róchas se variem. Não tens tambem, para formar-lhe a gala Não tens do baixo arbusto a folha errante? Gósto de ver os dóceis novedios Pelos áridos flancos dos penedos Em tenrinhos festões ir serpeando; Gósto de ver-lhes a escalvada fronte Toucar-se de verdura, e ganhar sombras. Isto inda he pouco. Hum valle entre estas penhas, Hum valle precioso, hum chão mais grato Ri-se a teus olhos? Aproveita-o, mostra, Expoem esta riqueza inesperada. He feliz, singular este contraste, He a esterilidade, ella, que hum breve Espaço apetecivel de terreno Cede á fertilidade: assim subjugas O aspérrimo caracter dos rochedos. Para agradar-te he força ornallos sempre? Não; se a arte deve o horror sempre adoçar-lhes, Consente ás vezes que o pavor inspirem, Favorece-os até. Na extremidade De hum precipicio huma cabana eleva, E com ella augmentado elle parece: Ponte audaz de hum rochedo a outro lança; Eu tremo ao vêllos, e a medonho abysmo Imminente me põem a fantasia. Lembrão-me esses boatos populares, Os casos de perdidos Passageiros, D'Amantes despenhados: contos velhos Que, prendendo attenção maravilhada, Á credula Aldeã serões encurtão; E o terror do lugar ajuda a crença. Porém com sobriedade usar se deve Destes grandes effeitos. A tão duras, Tão agras commoções, abalos doces, Molle socego o coração prefere: Eu exprimento em mim que das montanhas Me he preciso baixar aos ledos valles. Tenho-os de flores, de arvores coberto: Tempo he que á sombra dellas manem agoas. Bem: já que os cimos vossos, nus outr'hora, Pelas minhas lições estão vestidos Tão ricamente, oh róchas, franqueai-me As subterraneas, íntimas origens: Rios, arroyos, vós, vós, lagos, fontes, Vinde, espraiai frescura, e vida em tudo. Ah! Que prazer substituir-vos póde? Vosso contente, luzidio aspecto Se de perto entretem, convida ao longe. Sois o primeiro objecto que se busca, O ultimo que se deixa. As agoas vossas Fertilizando a Terra, o Ceo duplicão. Os ouvidos encanta, encanta os olhos Vosso cristal, vosso murmùreo. Ah! vinde; Dado seja a meus versos, que vos seguem, Correr do coração mais tentadores, Mais abundantes que o principio vosso; Mais leves do que os Zéfyros, que dobrão Vossos canaviais; e brandos, puros Como esse rumorzinho, essa corrente. Tu, senhor destas agoas bemfeitoras, Venera-lhe o pendor, té o capricho; Nos livres gyros seus vê como abração Facilmente das margens os contórnos. E ousas, encarcerando-lhe a brandura, Os tortuosos passos constranger-lhe! De que lhe serve o marmore em que he preza? Não vês co'a longa trança entregue aos ventos, Sem arte alguma, sem postiço adorno, Campestre, prazenteira, ingénua Moça Andar, correr, saltar! A graça della Está no solto, natural meneio. Contempla n'um Serralho a Formosura. Ella deslumbra em vão, debalde ostenta A pompa oriental, brilho estudado: Hum triste não sei que, na face impresso, Lhe argue a sujeição, desbota as graças. A agoa mantenha a liberdade que ama, Ou muda-lhe em belleza o cativeiro. Assim, contra Morel, cuja eloquente, E ponderosa vóz pleitear soube Os direitos da simples Natureza, Gósto das agoas, que em canaes opressas, Com rápida violencia partem, saltão. Ao ver esses cristais, que arte atrevida Da Terra faz brotar, e aos ares lança, O Homem diz: «eu criei estes portentos:» E em tais prestigios a arte sua admira. Nos custosos jardins dos Reis, dos Grandes Reluzão, pois; mas, outra vez o digo, Longe os luxos plebêos, o vergonhoso, Mesquinho jácto de agoa, que da Terra Mal ousando arredar-se, apenas sóbe, E em minima distancia morre logo. Tudo a tanta riqueza corresponda; Tudo grangêe á roda hum ar de encanto. Os olhos persuade, e o pensamento De que vara eficaz em mão de Fada Formára para a Dona este retiro. Tàl eu vi de Saint Cloud o amavel bosque. Póde a vista medir do jacto a altura? Como que aplaudem tanques, grutas, plantas As agoas, que sobre agoas cahem, fervem; O ar he mais fresco alli, mais verde a relva, Das aves o gorgeio alli se aviva Ao som das vitreas ondas, que baquêão; E, as rociadas testas inclinando, Como que ao doce orvalho os bosques se abrem. Não menos bella, mais campestre, e simples A cascata ornará lugar mais tosco. De longe se ouve, admira-se de perto Lympha sempre a cahir, sempre suspensa; E vária, e magestosa, anima a hum tempo Os rochedos, a terra, agoas, e bosques. Emprega, pois, esta arte; porém longe Esses tristes degráos, onde, cahindo Com movimento igual, medida certa, As ondas, bem que vão precipitadas, Até no seu furor seus passos contão. Só tem jus de aprazer a variedade. Goza mais de hum caracter a cascata. Ora em tumulto as agoas despenhadas No tortuoso leito, correm, cahem, Saltão, recahem, e escumão, e esbravêão, Ora de espaço desdobrando as ondas, Puro, calado, remansinho ameno Em azul véo se esparge. Os olhos folgão De ver estes gentis Anfiteatros, De ver sobre as ceruleas espadanas Reflectir, scintilar o oiro diurno; Tambem lhe apraz a escuridão das penhas, E a verdura das canas, e a espumosa Argentea côr das agoas fugidias. Consulta, pois, Artifice, os effeitos Que intentas produzir. As lymphas, promptas Sempre a deixar guiar-se, hão de offrecer-te, Quer mais impetuosas, quer mais lentas, Quadros benignos, ou soberbos quadros, Graves, ou deleitosos: quadros, n'alma Sempre efficazes. Que mortal não próva A profunda impressão que vem das ondas? Sempre, ou viva corrente arrebatada Sobre seixos murmure, e ferva, e salte, Ou ribeira indolente sobre o lodo Em paz alargue as agoas preguiçosas, Ou torrente feróz entre penedos Quebre com rijo estrondo, alegre, triste A sua correnteza excita, applaca, Ameaça, ou amima. Escuto á fama Que de Vénus o cinto milagroso Amores, e desejos incluia, E o prazer, e a esperança, precursôra De inefaveis delicias. O teu cinto He, divina Cybele, he agoa: nella, Não menos poderosa, estão complexos Terror, perturbação, tristeza, e riso. Quem melhor o sentio do que a minha alma? Quem o soube melhor? Mil, e mil vezes Quando azedos, escuros pezadumes, Inda mais pela noite enegrecidos, Vinhão martyrizar-me o pensamento, Se ouvia os passos de visinho arroyo, Demandava estes sons consoladores. Das agoas a frescura, a vóz das agoas Cuidados, afflicções me adormecião, E a paz do coração resuscitava: Tanto d'agoa o murmureo n'alma influe! Em paga de tão gratos beneficios, Sofre, oh ribeiro, que a arte, sem, comtudo, Muito se assoberbar, te aformosêe, Se he que aformosear-te acaso póde. Não quadra a vasto plano hum rio escasso: Seu leito incerta linha alli traçára. A timida corrente á luz se furta, E quer banhar hum bosquezinho escuso. Sua doce carreira adorna as selvas, Só ellas o namorão. Seus caprichos Lá com todo o vagar seguir-se pódem, Seus gyros, seu pendor, seu lindo estorvo, A cólera, o fervor das bellas ondas, Tornadas pelo obstáculo mais bellas. Ora num álveo concavo, e sombrio Co'a ramada que o cobre, elle recata O cabedal agreste, ora presenta Em patente canal o espelho á vista: Sem vello o escuto, ou sem ouvillo o vejo. Alli meigos cristais abração Ilhas, Além se torna em dois o leve arroyo, Em dois, que nas carreiras competindo, Apóstão rapidez, e claridade; E ambos depois no leito, que os ajunta De andarem par a par murmurão ledos. Errando sempre assim, de volta em volta, Mudo, loquaz, pacifico, agitado, Em mil varios aspectos se renova. Mas copiosa ribeira ás frescas margens Me está chamando. Em campo mais aberto, Nobre, e pomposo quadro, as ondas suas Ondas menos modestas, vão rolando, E co' fulgor diurno ao longe brilhão. Deixa ao regato seu prazer lascivo, A sua agitação, e os seus rodeios; E segue caudalosa a curvidade, O circuito dos valles sinuosos. Se dos bosques o arroyo adorno colhe, Ama o rio tambem diversas plantas. Quer que lhe ornem, lhe assombrem a corrente, Os descorados chôpos, e os salgueiros Meios verdes. Que origem tão fecunda De scenas, de accidentes! Alli gósto De olhar-lhe derrubadas sobre o rio As ramas, e tremer ao movimento Das agoas, e dos ares; aqui foge Por baixo das abobadas virentes A onda escurecida; além penetra Por entre folha, e folha hum tenue lume, Ora as grenhas se embebem na corrente, Ora a impede a raiz; e desmandando De huma para outra margem a verdura, Como que avanção, que outro sitio querem. Assim as ondas, e arvores se ajudão, A agoa remoça a planta, a planta a enfeita; E ambas fazem, ligando-se em mil fórmas, Amavel cambio de frescura, e sombra. Unillas sabe, pois, ou se em lugares Formosos, proprios della, a Natureza Já celebrou sem ti este consorcio, Respeita-a. Desgraçado o que presume Excedella no engenho! He tal (e á mente O coração mo traz) tal he o asylo, Querido Watelet, onde, amansando, Em sombrios canais se parte o Sena, O Sena encantador, tão puro, e livre Como a tua moral, como os teus dias, E visita em segredo o lar de hum Sabio. Com arte lhe acudiste, não com arte Temeraria, fallaz, profanadora Desses lugares que supõe que adorna. Viste, amaste, sentiste a Natureza, Digno de a ver, de amalla, e de sentilla; Tu a trataste como intacta Virgem, Que da nudez se corre, e teme o ornato. Parece-me, que vejo o falso gosto Estragar esses campos feiticeiros: «Este moinho, cujo som ruidoso Nutre a meditação, he importuno:» Dalli o arrancão subito. Estas margens Torneadas assim tão brandamente, E pelo proprio Sena afeiçoadas, Duramente se alinhão. A verdura, Que no seu molle cinto o rio encerra, Alli já não florece. Agoas queixosas Seus lageados cárceres accusão. O marmore fastoso a relva ultraja, E tosqueadas arvores cativas Os idosos salgueiros desapossão Da margem linda, e cara. Ah! suspendei-vos: Barbaros; acatai esses lugares; E vós, oh rio, oh bosques deleitosos, Se a vossa formosura hei retratado, Se, adolescente ainda, alegres versos Ás agoas, prados, sombras já tecia, Ministrai longamente, oh rio, oh bosques, Ao vosso possessor a doce imagem Da paz sagrada que em sua alma reina. Quanto na molle agilidade o rio De margem angular teme a aspereza, Tanto as margens agudas ornamento São de estendidos lagos, e o mais bello. Ora se avance a Terra ao seio undoso, Ora abra ás ondas domicilio fundo. Com revezado amor assim se chamem, Se busquem mutuamente Agoas, e Terra: Nestes varios aspectos folga a vista. A comprida extensão n'um lago se ama; Da-lhe sitios, comtudo, em que repouse. Não se lhe interrompendo a immensidade, Meus olhos sem prazer, sem interesse Vão pela superficie escorregando. Para lhe abreviar o espaço insulso, Edificio, das calmas venerado, Nas ondas repetido, assome ao longe, Ou Ilha que verdeje entre ellas surja: As Ilhas são das agoas summo adorno. Ou levanta-lhe as margens, ou viçosas Arvores, em festões dispersos, ganhem Tua contemplação, teus olhos prendão. Se queres produzir opposto effeito, Se o lago estender queres, manda ás margens Mui subidas, que desção, e ou distancia Mais arredada os arvoredos tenhão, Ou faze com que as agoas vão sumir-se N'um denso bosquezinho, e que tornêem Ao pé de huma colina. O pensamento Por entre estas cortinas de verdura, Onde desaparecem, vai seguindo As agoas, e as prolonga. Assim teus olhos Gozão do que não vem; dest'arte o Gosto Lindezas, perfeições confere a tudo; E de objectos que inventa, e dos que imita Descobre, alonga, aperta, esconde o termo. Agora que a Arte o meu trabalho insulta Em soberbos jardins, nos meus, ditosos, Liberdade, e prazer tudo respira: Rindo-se a relva, a seu sabor viceja, Independente o bosque, altèa a rama; Não temem a tisoira os arvoredos, Nem flores a esquadria; amão as ondas As margens suas, seu adorno a Terra; Tudo he formoso alli, simples, e grande, Tudo: esta arte he a tua, oh Natureza. Porém o lago, o rio estão desertos, De Cidadãos se lhe povôe o seio. Dem-se-lhe as aves, que com agil remo Alados navegantes, a agoa fendem. Nella se pavonêa, e nada o Cysne, De vanglorioso cóllo, argêntea pluma, O Cysne, a que a Ficção deo vóz tão doce, E que escusa das Fabulas o auxilio. Tambem não tens para animar as agoas, Oh Arte, esse apparato vacilante Dos mastros, e das vélas? Impelida De remo compassado, a leve barca Deixa apenas, fugindo, hum tenue rasto, Que logo se esvaece. Entumecido Dos Favonios azuis, sussurra o pano, E em cada bandeirinha os ares brincão. Pois se a Novela, a Fabula, ou a Historia Huma fonte, hum ribeiro consagrárão, Da sua gloria antiga elles ufanos, Assás se aformosêão, se atavião Com suaves memorias. Ah! Quem póde, Descobrir, encontrar, sem commover-se, Arethusa, o Lignon, Alfêo? Quem póde Sem cordial saudade olhar Vauclusa? Vauclusa, encantamento irresistivel Dos Vates, e inda mais dos Amadores, No circulo de Montes, que, encurvando Sua cadeia, com liquor sadio Te alenta a subterranea, doce origem, Lá debaixo da abobada nativa, Do antro mysterioso, onde, esquivada A Nynfa tua aos olhos cubiçosos, Sóme em fundo insondavel teu principio, Oh quanto me foi grato o ver-te as agoas, Que, sempre crystalinas, sempre bellas, Ora n'um lago seus thesoiros fechão, Ora sobem, fervendo, e lanção fóra Ondas, a branquejar por entre as penhas; De cascata em cascata ao longe pulão, Cahem, e rólão com impeto estrondoso; A cólera depois amaciando, Por leito mais igual vão docemente; E debaixo de Ceos sempre azulados Por cem canais fecundão valle ameno, Ameno qual nenhum que os Sóes aclárão! Mas estes puros Ceos, estas correntes, Este delicioso, e pingue valle, Menos o coração me penhoravão Do que Petrarca, e Laura. Eis (eu dizia, Eu dizia a mim mesmo) ah! Eis as margens Que a lyra de Petrarca suspirosa Outr'hora enfeitiçou! Aqui o Amante Via, exprimindo a Laura os seus amores, Vir devagar o dia, ir-se depressa. Inda sobre estas róchas solitarias, Inda, acaso, acharei das cifras de ambos Unidos, maviosos caractéres? Tocão meus olhos desviada Gruta: Ah! dize-me se os vistes venturosos, Guarida opáca? (eu pronuncio) Hum tronco Toldava encanecido á fonte á margem? Laura dormido havia á sombra delle. Alli por Laura perguntava aos Ecos, E os Ecos o seu nome inda sabião. Buscaveis, olhos meus, Petrarca, e Laura Em toda a parte, e em toda a parte os vieis. Erão já morte, e cinza os dois Amantes, Mas inda com seus Manes amorosos Mais bello se tornava o sitio bello.