Versos Portuguese Jaime de Magalhães Lima Xiv

Portuguese poem

Xiv

by (1859–1936)

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Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.

Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a purificava?!...

Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros desmaiassem timidos e um estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta brandura e calma ela derrama. É que uma nuvem perpassou errante e etereamente se esvaiu e perde.

Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida, estranho ser que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas deixa com igual desamor e igual capricho, imagem fugidia de um efemero delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o podêr mais ardente das estrelas e pode te-lo turvado, escurecido e humilhado.

Ai de mim, ai de mim!... Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-me os sonhos toda a luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da ventura, despóticos senhores e poderosos de toda a glória e mágoa do meu peito.

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