Portuguese poem
Virginia
by João de Deus
Para se recitar no theatro do Príncipe-Real
Senhores! vêde o sol; diariamente Nasce, cruza esse espaço e, no poente, Acaba de brilhar. É util, é preciso, é necessario, Não é pois inconstante, não é vario; É certo, é regular!
Hervas que nutrem, animaes que comem, E a imagem de Deus--que falla--o homem, Sem essa luz, dizei: Vegetavam acaso, existiriam? Os echos d'esses valles repetiam Alguma voz? O que!...
Seria tudo um ermo escuro e mudo; Tudo insensivel, solitario tudo! Mas Deus cria essa luz; E um mar sem praias de silencio e morte, Sêres de toda a casta--toda a sorte, Produz e reproduz!
Sim, essa luz benefica converte, Por mysteriosa alchimia, frio, inerte, Imperceptivel grão Em tenras hastes, em botões mimosos, Folhas, flôres e fructos saborosos Que recamam o chão!
Mas julgaes vós agricola sómente A mão do creador omnisciente? Pergunta singular! Basta só vêr a ondeada trança Com que elle adorna a virgem que vos lança O seu primeiro olhar!
A terra é de côr varia, a planta, verde: Porque e para que? O que se perde Em ter tudo uma côr? O que se ganha em ser tão bem pintada, Symetrica, mimosa, perfumada Uma ephemera flôr?
É que Deus é artista! e noite e dia E céo e terra e mar o denuncia... Vêde nascer o sol! Pôr-se alta noite a lua encantadora... Em quanto ao mesmo tempo canta e chora Ao longe o rouxinol!
Deus é artista, sim; Deus ama o bello, Mais talvez do que o util. O desvelo Com que elle trata a flôr! Antes de abrir... que mãi tão carinhosa Resguarda, mais solicita que a rosa, Um seu botão d'amor!
Nem podia sahir obra incompleta Das mãos de Deus: geometra e poeta Em summo grau, traçou A compasso a abobada celeste; Mas de que lindas nuvens a reveste Que ao vento tomam vôo!
Creou, de fogo, o sol--o grande astro! E creou, não de fogo, d'alabastro A sua bella irmã --Sombra apenas do sol, desnecessaria, Luz phantastica, vaga, solitaria, Inutil, fátua, vã...
Mas luz intima! luz do sentimento! Luz d'amor e de fé! que inspira alento A nossos corações! Unica luz, á qual se mede o fundo D'esse concavo mar... d'esse outro mundo... D'esse mundo de soes!
Porque se ao sol deveis fructos e flôres, Á lua deveis mais, deveis amores... Deveis... como direi? Esta entranhavel, vaga saudade De não sei que melhor realidade, Que o mundo que se vê...
Quantas vezes, depois da lida insana D'um dia, n'este mar da vida humana, Vendo surgir no céo Essa luz melancolica e suave, Eu acho então, e com que allivio, a chave D'este mysterio meu!...
D'este amor por phantasticos amores... Comtudo mais leaes e duradores Que os d'esse mundo são! D'este mundo de sombras... até prestes, Sombra tambem, á sombra dos cyprestes Achar satisfação!
E eu digo, digo á lua scismadora Com os olhos risonhos de quem chora Pranto consolador: Se pois Deus te creou porque eras bella... O que vale o sol mais do que uma estrella? Um rei do que um pintor?
Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa De vaporosa nuvem, n'essa immensa Abodada dos céos, Pareces-me o thuribulo sagrado Com os rolos de incenso evaporado Em tua honra, oh Deus!
E a minha vista sofrega acompanha Esse clarão phantastico á montanha Ou da terra ou do mar, Onde, acabada a obra do seu dia, Astro d'amor e de melancolia, Se deita a descançar.
E eu descanço tambem; filha da arte... Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te! E pergunte-me alguem: --Tu que fazes no mundo, mulher futil? --O que Deus faz... na flôr, na lua inutil... Sou artista tambem.
Lisboa.
* * * * *