Portuguese poem
Invocação
by João de Lemos (1819–1890)
Archanjo da poesia! Vem e pousa Na lyra ao trovador. Vibra-lhe as cordas C'os roseos dedos; põe-lhe os sons divinos Dessa etherea mansão por onde libras Nas cambiantes azas d'oiro e prata, Com ceruleos listões de puro esmalte! Archanjo! Ao trovador, teus doces risos, Nas illusões d'amor, banhem seus versos; Engrinalda-lhe a lyra co'as papoilas Que nos campos do céu á noite brotam; Um beijo teu, na fronte, venha dar-lhe Celeste inspiração aos ardimentos; Teu halito co'as brisas lhe cicie Na grenha da floresta amenos carmes, No perfume da flor canções singelas, Da rôla no gemer ternas saudades, Ou, por fisgas de penha alcantilada, Um rígido cantar, na voz do vento. Archanjo! Ao trovador ensina, empresta As mil chaves que tens d'abrir mil cofres Ou da terra, ou do mar, do céu, do inferno! Vem, vem, que o trovador, ousado, enjeita As cançadas ficções da velha Grecia, Quebra numes d'Ascreu, Musas despreza, Renega antigas leis, descrê do Olympo, Deixa Elysios, Parnasos, Hippocrenes, Bebe do patrio amor nas patrias fontes, Ama o sol da sua terra, os montes delia, E por Musas te quer, por crença o Eterno, O mundo por altar, os céus por templo!