Portuguese poem
A Tirana
by João Simões Lopes Neto (1865–1916)
Eu amei uma tirana, E ela não me quis bem! (ai) Agora vou desprezá-la, Vou ser tirano também! (ai)
Todos gostam da tirana Mas é só para dançar; Porque, de uma tirania Ninguém deve de gostar.
Tirana, feliz tirana, Tirana, de tirania Já não morre por amores Quem de amores não morria.
Tirana, feliz tirana, Tirana, vamos andando; A minha licença é pouca, O tempo 'stá se acabando.
Tirana, feliz tirana, Tirana, que bom fandango! De tudo vou me esquecendo, Só de ti vou me lembrando.
Tirana, feliz tirana, Tirana, o sol 'stá nascendo! E quando o sol se apagar Nas estrelas 'stou te vendo!
Tirana, feliz tirana, Tirana, vamos embora Juntinhos de braço dado, Antes de romper a aurora...
Tirana, tira, tirana, Tirana de fagagoza, Assim como ela é bonita, Também há de ser gostosa.
Tirana, tira, tirana, Tirana, que eu vi, bem vi: Meu amor em braços doutro!... Não sei como não morri!
Tirana, tira, tirana, Tirana, vou te deixar: Tirana, juraste falso, Tirana — p'ra me enganar!
Tirana, bela tirana, Tirana do arvoredo: Se teu pai te degradar Comigo seja o degredo!
Tirana, bela tirana, Tirana do pé pequeno, Eu te levo nos meus braços E não te molha, o sereno!
Tirana, bela tirana, Tirana, não chores, não; Não dormirás ao relento, Teu leito é meu coração!
A Tirana é mulher velha, Já não é mais rapariga, Por isso ela já não quer Que lhe metam em cantiga.
A Tirana é mulher brava, E mora num faxinal, Socando sua canjica, Comendo feijão sem sal.
A Tirana quando olha P'ra gente, de atravessado, É sempre muito melhor, Não s'esperar o recado!...
A Tirana quando puxa As pelancas da papada, Adeus! minhas encomendas! Vai roncar a trovoada!...
A Tirana é capivara Velha, de má condição: Quando ela fica zangada, Bate co'a bunda no chão!
Tirana, velha Tirana, Tirana do ariru: A mulher matou o marido Co'a pá de mexer angu!