Versos Portuguese Joaquim de Araújo I

Portuguese poem

I

by (1858–1917)

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Num vozear estridulo e vibrante, Irrompe a multidão: Palpita como um hymno triumphante, Em cada coração.

Vem pagar uma divida sagrada, E, em francas ovações, Junto á Estatua de bronze immaculada, Victoría Camões.

Três seculos havia, a morte escura Fulminara esse heroe, Que até na doce paz da sepultura Tão desgraçado foi!

Três seculos havia. Inenarravel, Essa agonia atrós: No catre do hospital, inexoravel, A Morte, o duro algoz.

E, cá fóra, ao bom Sol, o claro amigo, Cá fóra do hospital, Os villões trabalhando no jazigo Do antigo Portugal...

Um circulo dantesco e pavoroso: O Genio num covil, E no triumpho, erguido e magestoso, O asqueroso reptil.

A Traição galanada: o cru Cinismo Fingindo de Altivês: Hiante, escancarado, o fundo abismo Do nome português.

Não ha na infamia quem se não adestre, Esmagando tropheus, Tal como sobre a tunica do Mestre Jogavam os Judeus.

As Tradições ao vento, ao torvelinho, A Gloria,--ás bachanaes... Adejam os milhafres junto ao ninho... Onde as aguias reaes?

Onde as aguias reaes? Foram seu rumo, Fugiram da ralé: --Crestava-lhes a aza o escuro fumo Do escuro auto-de-fé.

O balsão do Impudor fluctua ao vento, Nos tragicos festins... É morta a fina flôr do Sentimento, Miserrimos chatins!

Dormiam nos seus tumulos augustos, Ainda alta a cervís De denodados campeões robustos, Os infantes de Avís--

E todos os titans, de Gloria trémulos Outrora, aos vivos soes, Galgando mundos, continentes,--émulos Dos primevos heroes...

E a Nação dêsses inclytos herdeira Ia rojar no chão A honra intemerata da bandeira, O invencivel pendão...

E o Poeta-cavalleiro esmorecia, Ao fim do seu lidar: Com a Patria morria--se morria!-- Quem tanto a soube amar.

Tres seculos havia... Mas vibrante Irrompe a Multidão: Palpita como um hymno triumphante, Em cada coração.

E o Vidente, na Estatua alevantada Nem de leve acordou: Na magestade erecta e bronzeada, Immovel se ficou!...

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