Versos Portuguese José da Silva Maia Ferreira Uma recordação

Portuguese poem

Uma recordação

by (1827–1881)

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Era noite de mui almo luar — Uma noite em que triste pensava Em amores que o tempo roubou-me, Em Maria que eu tanto adorava.

Toda a terra dormia em silencio, Só eu triste na terra velava, Nesta terra em que a sorte roubou-me Os amores que eu tanto adorava!

Foi aqui!… A minh’alma o recorda, Que tão bella e tão meiga me ouvia, Quando a sós nossas juras jurando, Só com ella na terra vivia.

Foi aqui, que ora alegre, esquecendo Este mundo d’espinhos e dôr, Contemplava o meu anjo da terra, Me fallando só fallas d’amor!

Foi aqui, que ora em beijos frementes Os seus labios tocavam nos meus, E suas faces córando de pejo — M’infiltravam delicias dos Ceus! —

Foi aqui!… mas p’ra que recordar Esses dias de gôso passado, Para que? — se fugio-me a ventura, Se na terra hoje sou desgraçado? —

Nesta hora d’amarga lembrança, Nest’instante d’horrivel penar, Sinto a dôr que nem lagrimas pódem Em meu peito faze-la cessar.

Sinto a dôr mais cruel e pungente, No rigor da mais viva saudade — Que perfidia de horrenda traição, Desabrida lançou sem piedade!

Oh! mal haja essa mão impiedosa, Qu’em meu labios o fel d’amargura Me roçou, e me obriga a soffrer Deste mundo a maior desventura!

Oh! mal hajam os meus dias de vida, Desta vida de crú vegetar, Que delirios de branto e tormentos A existencia m’intentam roubar!

E tão triste, qual rôla que geme, E tão murcho, qual flôr desfolhada, E tão stéril, qual erma campina, E tão mudo, qual fonte estagnada,

Hei de embora p’ra sempre opprimido Em tão triste e medonha soidão, Adorar-te na vida, e na morte, Conservar em meu peito a paixão!