Versos Portuguese Leandro Gomes de Barros O Imposto de Honra

Portuguese poem

O Imposto de Honra

by (1865–1918)

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O velho mundo vai mal. E o governo danado Cobrando imposto de honra Sem haver ninguém honrado. E como se paga imposto Do que não tem no mercado?

Procurar honra hoje em dia É escolher sal na areia Granito de pólvora em brasa Inocência na cadeia Agua doce na maré Escuro na lua cheia.

Agora se querem ver O cofre público estufado E ver no Rio de Janeiro O dinheiro armazenado? Mande que o governo cobre Imposto de desonrado.

Porém imposto de honra? É falar sem ver alguém Dar remédio a quem morreu Tirar de onde não tem Eu sou capaz de jurar Que esse não rende um vintém.

Com os incêndios da alfândega Como sempre tem se dado Dinheiro que sai do cofre Sem alguém ter o tirado Mas o empregado é rico Faz isso e diz: — Sou honrado.

Dizia Venceslau Brás Com cara bastante feia Diabo leve a pessoa Que compra na venda alheia O resultado daí É o freguês na cadeia.

Ora o Brasil deve à França Mas a dívida não foi minha Agora chega Paris Tira o facão da bainha E diz: — Quero meu dinheiro Inda que seja em galinha.

Seu fulano dos anzóis Entrou e meteu o pau Pensou que tripa era carne E gaita era berimbau Vão cobrar desse, ele diz, Quem paga é seu Venceslau.

Disse Hermes da Fonseca Eu não tinha nem um x. Mas achei quem emprestasse Tomei tudo quanto quis Embora tivesse feito A derrota do país.

Disse Pandiá Calógeras: — Há um jeito de salvar Cobre.se imposto de honra Que ver dinheiro abrejar. Disse o Brás: — Ninguém tem honra, Como se pode cobrar?

Apareceu uma parte Do Rivadávia Correia: Não tem aqui entre nós Devido à cousa está feia Não acha-se no senado Procura-se na cadeia.

O major Deocleciano Disse da forma seguinte: — Na cadeia do Recife Eu tive um constituinte Entre ele e outros mais Inda se pode achar vinte.

Disse o Dr. Rivadávia: — Eu fiz doutor de 60 Dei carta aqui a quadrado Que não escreve pimenta Tem médico que receitando Procura o pulso na venta.

Porém na minha algibeira Sessenta fachos ficaram Embora tenha saído Mais burro do que entraram Dei diploma a criaturas Que nem o nome assinaram.

E este imposto de honra Está nas mesmas condições Tira-se bom resultado Onde houver muitos ladrões Até mesmo a meretriz Levará seus dez tostões.

Ela pagando imposto Pode provar que é honrada Tendo uns oito ou nove erros Isso não quer dizer nada Passa por viúva alegre Ou uma meia casada.

Qualquer ladrão de cavalo Paga o que for exigido Porque dessa data cru diante Não rouba mais escondido Com o talão do imposto Não o prendem é garantido.

Pelo menos eu conheço Um tal Chico Galinheiro Que disse: — Eu pago imposto Também quem tiver poleiro Nunca mais há de criar-se Nem um pinto no terreiro.

Disse Marocas de todos: — Oh! cousa boa danada Eu compro um vestido preto E grito: — Rapaziada Meu marido não morreu Mas eu? sou viúva honrada.

Pago o imposto de honra Boto no bolso o talão E grito no meio da rua Se aparecer um ladrão Que diga: — Não és honrada Veja se eu provo ou não.

Esses diabos que hoje Me chamam Marocas tinha Quando eu pagar o imposto Me tratam por sinhazinha Se for de tenente acima Chamam dona Maroquinha.

Disse um zelador da noite: — O imposto não é mau Foi uma lembrança ótima Aquela do Venceslau O diabo é se o talão Não livrar ninguém do pau.

Se a cousa for como eu penso E não tiver seus conformes Nós operários noturnos Teremos lucros enormes Cada corador por noite Nos rende dous uniformes.

Dormindo o dono da casa Dar-se a busca no quintal Inda a polícia chegando Não pode nos fazer mal Pois nós pagamos imposto Ao governo federal.

Disse um passador de cédula: — Ai eu não sei o que faça Se quem pagar o imposto Puder passar cédula falsa Com uma eu pago o imposto Sai-me a receita de graça.

Disse Zé Frango: — Esse imposto Chegando eu tenho que pagá-lo O pago com sacrifício Mas também tenho o regalo Quem me chamava Zé Frango Há de chamar Zeca-Galo.

Dizia João caloteiro: — Está muito bem isso assim Benza-te Deus, Venceslau Deus te ajude até o fim Eu hei de ver se o comércio Ainda cobra de mim.

Tem dia que lá em casa Eu desespero da fé Ouço baterem na porta Vou abrir e ver quem é Acho na porta escorado O caixeiro do café.

Antes de desenganá-lo Chega o danado da venda O sapateiro de um lado E o turco da fazenda O recado do açougue A velha cobrando a renda.

Nisso chega outro diabo Com um recibo na mão Antes de chegar, pergunta Se eu tenho dinheiro ou não. Ou o dinheiro ou a chave Manda dizer o patrão.

Eu pagando esse imposto Fico disso descansado Quando um bater-me na porta Digo puxe desgraçado Eu pago imposto de honra Não sou desmoralizado.

Embora roube de alguém O imposto hei de pagar Mas todo mundo já sabe Na bodega que eu chegar Nem pergunto pelo preço É só mandar embrulhar.