Portuguese poem
Levanta-te e caminha
by Lima Barreto (1881–1922)
Pois para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados, disse ele então ao paralítico: Levanta-te, deixa o teu leito, e vai para a tua casa. S. Mateus.
Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas Que devem gritar sempre e muito forte: alerta! Porém, que vão passando a vida adormecidas, Deixando a porta da alma inteiramente aberta!
Devemos despertar depressa esses soldados, E dar-lhes disciplina, enchê-los de valor; Pospontar-lhes na farda alguns galões dourados, Fazendo-os da razão ouvir sempre o tambor!
Precisamos trazer de pé as energias Que vivem dentro da alma inertes, sem ação; Debelar num sorriso os golpes de agonias Que trazem sempre o luto ao nosso coração!
Deve ser como a planta o pensamento humano: Livre deve nascer, desalogadamente Florir; porque, se a planta enxertam, nem um ano Conserva o seu vigor, e muito lentamente Perdendo a vida vai, e morre, e se aniquila. É que a fonte da vida, a verdadeira mola
(A sua essência enfim, essência que se asila Na própria Natureza) arrefece e se estiola. Porém, se a mesma planta ou tronco, se a mesma hera, Apenas puro sol aquece onde ela esteja, Rebenta, alegre, e vai saudando a primavera, Sem nunca precisar das bênçãos de uma igreja!
Vi Lamarck nesse pego Da camada subterrânea, Procurando como um cego A Geração espontânea! Estava lá Goethe - o sábio - ! Herschel sustinha o astrolábio, Querendo falar ao Sol; Vi, como Laplace, Linneu, Discutindo o valor teu, Com muitos sábios de escol!
Não te maldigas nunca, e nunca te exasperes Contra a dor que te oprime; o espinho em que te feres Criaste-o mesmo tu: Quem a túnica rasga, embora a mais singela, Não pode maldizer o frio que o regela, Se quis mesmo andar nu!