Portuguese poem
Ode
De pungentes estimulos ferido O Regedor dos ceos e humilde terra, Sôbre ti manda, desastrada Lysia, Effeitos da sua íra.
A peste armada destruir teu povo A um seu leve aceno vôa logo: Estraga, fere, mata sanguinosa, Despiedada e crua.
Despenhada no abysmo da ruina, Fugir pretendes aos accesos raios, Qual horrida phantasma, porém logo Desfallecida cahes.
O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia, Mas inda muito mais os teus errores Que provocar fizerão contra ti Contagião mortal.
Dos Ceos apagar cuida a justa sanha Da penitencia com as bastas ágoas, Ja que revel e surda te mostraste
A seus mudos avisos. Então verás ornada a nobre frente, Como nos priscos tempos que passárão, De esclarecidos louros, sinal certo De teus almos triumphos.
Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação da monarchia.
No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, O Palmeirim de Inglaterra, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: Esta palma de Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro, Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal. Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni cata, perescan. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta sons menos harmoniosos e suaves.
Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he, cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique superior o de nenhuma outra nação estranha.
Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72: