Portuguese poem
Cxxxvi
Árvore, cujo pomo bello e brando Natureza de leite e sangue pinta, Onde a pureza, de vergonha tinta, Está virgineas faces imitando; Nunca do vento a ira, que arrancando Os troncos vai, o teu injúria sinta; Nem por malícia de ar te seja extinta A côr que está teu fructo debuxando. E pois emprestas doce e idoneo abrigo A meu contentamento, e favoreces Com teu suave cheiro a minha gloria; Se eu não te celebrar como mereces, Cantando-te, se quer farei comtigo Doce nos casos tristes a memoria.
CXXXVII.
O filho de Latona esclarecido, Que com seu raio alegra a humana gente, Matar pôde a Phytonica serpente Que mortes mil havia produzido. Ferio com arco, e de arco foi ferido, Com ponta aguda de ouro reluzente: Nas Thessalicas praias docemente Por a nympha Penea andou perdido. Não lhe pôde valer contra seu dano Saber, nem diligencias, nem respeito De quanto era celeste e soberano. Pois se hum deos nunca vio nem hum engano De quem era tão pouco em seu respeito, Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?
CXXXVIII.
Presença bella, angelica figura, Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado; Gesto alegre de rosas semeado, Entre as quaes se está rindo a Formosura: Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura Em crystal puro o negro marchetado, Que vemos ja no verde delicado Não esperança, mas inveja escura: Brandura, aviso, e graça, que augmentando A natural belleza co'hum desprezo, Com que mais desprezada mais se augmenta: São as prizões de hum coração, que prêzo, Seu mal ao som dos ferros vai cantando, Como faz a serêa na tormenta
CXXXIX.
Por cima destas águas forte e firme Irei aonde os Fados o ordenárão, Pois por cima de quantas derramárão Aquelles claros olhos pude vir-me. Ja chegado era o fim de despedir-me; Ja mil impedimentos se acabárão, Quando rios de amor se atravessárão A me impedir o passo de partir-me. Passei-os eu com ânimo obstinado, Com que a morte forçada gloriosa Faz o vencido ja desesperado. Em qual figura, ou gesto desusado, Póde ja fazer medo a morte irosa A quem t[~e]e a seus pés rendido e atado?
CXL.
Tal mostra de si dá vossa figura, Sibela, clara luz da redondeza, Que as fôrças e o poder da natureza Com sua claridade mais apura. Quem confiança ha visto tão segura, Tão singular esmalte da belleza, Que não padeça mal de mais graveza, Se resistir a seu amor procura? Eu, pois, por escusar tal esquivança, A razão sujeitei ao pensamento, A quem logo os sentidos se entregárão. Se vos offende o meu atrevimento, Inda podeis tomar nova vingança Nas reliquias da vida que ficárão.
CXLI.
Na desesperação ja repousava O peito longamente magoado, E, com seu damno eterno concertado, Ja não temia, ja não desejava; Quando huma sombra vãa me assegurava Que algum bem me podia estar guardado Em tão formosa imagem, que o traslado N'alma ficou, que nella se enlevava. Que credito que dá tão facilmente O coração áquillo que deseja, Quando lhe esquece o fero seu destino! Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente; Pois, postoque maior meu damno seja, Fica-me a gloria ja do que imagino.
CXLII.
Diversos dões reparte o Ceo benino, E quer que cada huma alma hum só possua; Por isso ornou de casto peito a Lua, Que o primeiro orbe illustra crystallino; De graça a Mãe formosa do Menino, Que nessa vista t[~e]e perdido a sua; Pallas de sciencia não maior que a tua: T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino. Mas junto agora o largo Ceo derrama Em ti o mais que tinha, e foi o menos Em respeito do Autor da natureza. Que a seu pezar te dão, formosa dama, Seu peito a Lua, sua graça Venos, Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza.
CXLIII.
Gentil Senhora, se a Fortuna imiga, Que contra mi com todo o Ceo conspira, Os olhos meus de ver os vossos tira, Porque em mais graves casos me persiga; Comigo levo esta alma, que se obriga Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra, A dar-vos a memoria, que suspira Só por fazer comvosco eterna liga. Nesta alma, onde a fortuna póde pouco, Tão viva vos terei, que frio e fome, Vos não possão tirar, nem mais perigos. Antes, com som de voz trémulo e rouco Por vós chamando, só com vosso nome Farei fugir os ventos, e os imigos.