Portuguese poem
Ix
A lampada accendida Sobre a meza do velho, as largas folhas Allumia de um livro. O maximo era Dos livros todos. A escolhida lauda Era a do canto dos captivos que iam Pelas ribas do Euphrates, relembrando As desgraças da patria. A sós, com elles, Suspira o velho aquelle psalmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada De Babylonia, um dia nos sentamos, Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos, E ao relembrarmos os extintos dias As lagrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias De captiveiro, alli nos perguntavam Pelas nossas antigas harmonias.
E diziamos nós aos que fallavam: «Como em terra de exilio amargo e duro Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»
Jerusalem, se inda n'um sol futuro, Eu desviar de ti meu pensamento E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha dextra a frio esquecimento Votada seja; apegue-se á garganta Esta lingua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e santa Jerusalem não for minha alegria Melhor no meio de miseria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros Arrazemol-os todos; só lhe baste Um montão de destroços mal seguros.
Filha de Babylonia, que peccaste, Abençoado o que se houver comtigo Com a mesma oppressão que nos mostraste!
Abençoado o barbaro inimigo Que os tenros filhos teus ás mãos tomando, Os for, por teu justissimo castigo, Contra um duro penedo esmigalhando!