Portuguese poem
Panegírico
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Ao Excelentíssimo Senhor Marquês de Marialva, Conde de Cantanhede, no tempo que governava as armas de Portugal
I Agora, Aquiles Lusitano, agora, Se tanto concedeis, se aspiro a tanto, Deponde um pouco a lança vencedora, Inclinai vossa fronte ao rude canto: Se minha veia vossa fama adora, Corra em Mavórcio, corra em sábio espanto, Cheia de glória, de Hipocrene cheia, No Mundo a fama, no discurso a veia.
II
Vós, Ramo ilustre de ũa excelsa planta, Que em fecunda virtude enobrecida, Entre os Troncos mais altos se levanta, Grande na estirpe, no valor crescida: Tão nobre sempre, que em nobreza tanta, Com água não, com sangue foi nascida, Da Infanta heróica; dando em tempos muitos De espadas folhas, de vitórias fruitos.
III
Escassamente quinze Maios eram, Que abrem do tenro buço os resplandores, Quando logo no peito vos alteram Guerreira propensão vossos Maiores: Venatório exercício pretenderam Vossos brios, se verdes superiores, Vendo em desejos de tratar escudos De Cíntia agrados não, de Marte estudos.
IV
Quantas vezes o bruto generoso, Que em virtude do impulso soberano Alterna as plantas gravemente airoso, Correndo Move a carreira loucamente ufano; a cavalo Seguia ao cervo, que de vós medroso, Asas lhe dava aos pés o próprio dano, De sorte que seguiu no mesmo alento, Não bruto ao bruto, porém vento ao vento.
V Entre os ócios da paz já valoroso Ostentáveis, Senhor, ao mesmo instante No peito denodado, e gesto airoso, Alentado valor, belo semblante; De sorte pois, que em gênio belicoso, De sorte pois, que em gentileza amante, Unindo as prensas de ũa, e outra sorte, Éreis galhardo Heitor, Narciso forte.
VI
Na manhã tenra da florida idade, Onde se ofusca a luz do entendimento, Com névoas de apetites a vontade, Com nuvens de loucura o pensamento: Na manhã tenra enfim a claridade Da prudência mostráveis sempre atento, Qual dia belo, que em manhã celeste Não se orna nuvens, não; raios se veste.
VII
Quando vosso primor alimentava Os doutos partos do sutil juízo, Lusitânia feliz vos aclamava, Entre verde saber maduro siso: Sua ciência na Lusitania feliz vos admirava, Mesma idade Quando entre ostentações de sábio aviso Frutificava em prevenido abono Na verde Primavera o rico Outono.
VIII
Quando a Pátria sujeita se rendia Do Castelhano Império à força crua, Oh como infelizmente se afligia, Fúnebre, triste, desmaiada, nua! Depois isenta da violência impia, Despindo as dores da tristeza sua amou-se no ardor de vossa espada Festiva, alegre, valorosa, ornada.
IX
Descingindo da fronte belicosa As verdes folhas da Arvore funesta, Dourando a nuvem d'ânsia lastimosa, O pranto serenou da mágoa infesta: Adornada escarlata generosa, Entre a voz popular da heróica festa Juntou, prevendo o forte, e fausto agouro, Na mão a espada, na cabeça o louro.
X
Roma já não se jacte por ufana De Cúrcio o arrojo, na lealdade pio, Não solenize já por soberana De Fábio a testa, de Marcelo o brio: Pois logra em vós a gente Lusitana, Pois em vós com mais crédito avalio, (Unindo três Heróis neste desvelo) Outro Cúrcio, outro Fábio, outro Marcelo.
XI
Vendo o frecheiro Deus que valoroso Vosso peito se opunha ao fogo ativo, Himeneu vos prendeu por amoroso, Cupido vos frechou por vingativo: Sendo vós igualmente amante airoso, Vós logrando igualmente esforço altivo, Se ornou no forte ardor, na doce chama Mavorte o Mirto, Citeréia a grama.
XII
Diga este Amor aquela Aurora, aquela Descendente do Herói, que em brio tanto Brilhando em seu valor invicta estrela, De Lisia glória foi, d'Africa espanto: Oh como agora se publica nela, Se a honestidade, se a beleza canto, Marialva por ilustre simpatia É de virtudes mar, e Alva do dia!
XIII
Quando vos elegeu supremo Aluno (Elvas opressa) a Pátria vacilante, Entre Soldado Capitão, vos uno, O bastão nobre, a espada fulminante: Quando rios de sangue vê Netuno, Pareceu um purpúreo, outro arrogante, De Lísia o Reino, do Oceano o espelho Por Arábia Feliz, por Mar Vermelho.
XIV
Campou de Lísia a Flor por renascida, Murchou a Flor de Ibéria por cortada; Aquela está no campo esclarecida, Esta fica no campo desmaiada, A campanha parece florescida, Sendo no duro Inverno maltratada: Porque tinta em correntes sanguinosas De cravos se vestiu, se ornou de rosas.
XV Ostentando no sítio heroicamente, Excessos de valor Cipião famoso, Ulisséia ficou Roma potente, O Tejo pareceu Tibre glorioso; E com tantos aplausos excelente Mostrastes por assombro generoso Na sorte alegre, no valor impio Modesto o coração, prudente o brio.
XVI
Marquês vos honra o generoso Atlante, Se do Céu não, da Lusitana terra, Sexto Afonso, que em armas fulminante Fez invicto o valor na justa guerra: Não foi por desempenho, porque amante Pagara o esforço, que esse braço encerra, Se Afonso fora no valor profundo Não Rei de um Reino, não; Senhor de um Mundo.
XVII
Depois seguramente conduzindo Contra o Príncipe Austríaco insolente Exército segundo, persuadindo Com muda discrição, voz eloqüente: Com a Deidade Estrimônia competindo, Do Tejo abristes o cristal corrente; Jacta-se já, pois logra em seu festejo Se Netuno o Oceano, Marte o Tejo.
XVIII
Na campanha do Ibero mal segura Vosso nome altamente publicado, Ambos vencestes a batalha dura, Sancho guerreiro então, vós respeitado: Com vosso nome a palma se assegura Somente pelas vozes de afamado, Quando Lísia aclamou glórias ufanas, Sendo Sancho Aníbal, o Cano Canas.
XIX
Outra vez com esforço verdadeiro No Transtagano império obedecido, Mostrastes na Província ânimo inteiro, Quando dela tivestes o Partido: Vitória Valente o peito foi, no ardor guerreiro, Alcançando a vitória esclarecido, (Valença o sabe) que em igual conceito Valença a Praça foi, valente o peito.
XX
Diga Lísia também a Palma nobre, Última empresa, da Mavórcia História Da fama devedora aplausos cobre Quando a fama por vós alcança a glória; O nome venturoso o sítio dobre De Montes Claros na feliz vitória, Que são da Parca, e Marte os golpes raros Nos corpos Montes, nas façanhas Claros.
XXI
Cedendo o peito à força sucessiva, Sendo opresso do Ibero o Lusitano, Retrocede, que a sorte compassiva Quis dar um troféu breve ao Castelhano: Nos bronzes logo o fero ardor se aviva, E nos ferros se esgrime o brio ufano, Armam-se os Lusos mais que duros cerros Com bronzes bronzes, e com ferros ferros.
XXII
Qual Deidade da Esfera luminosa Entre vapores pérfidos, consente Que um pouco ofusque a névoa tenebrosa As lisonjas gentis da luz ardente: Porém depois, os golpes da lustrosa Vingança a névoa desmaiada sente, Vibrando o Sol em férvido desmaio Luz a luz, chama a chama, raio a raio.
XXIII
Tal o luso valor, que Sol se apura, Consente entre escondidos ardimentos Que do Ibero conflito a névoa impura Ofusque de seu brio os luzimentos: Porém depois na bélica ventura Castigando nublados pensamentos Com luzidas façanhas, vibram logo Bala a bala, aço a aço, fogo a fogo.
XIV
Vós posto na eminência agigantada, Que rouba os raios do medroso Etonte, Não já de louro vossa fronte ornada, Ornada sim de estrelas vossa fronte: Subis ao Céu na glória celebrada, Sois assombro guerreiro do Horizonte, Com que o monte por ũa, e outra parte Fica Atlante do Céu, templo de Marte.
XV
Quando na Aula celeste visitava O louro amante do Peneu Louro Ao Troiano gentil, que a Jove dava Do Néctar o licor em mesas d'ouro: Entre o nevado horror, que o Céu vibrava Pronto no campo, intrépido ao pelouro, Repousáveis porém com braço feito, Sendo a neve colchões, as armas leito.
XXVI
Quando entre obstinações do ardor nocivo Latindo nesse Pólo o Cão luzente, Vomita em grave horror o fogo esquivo, Abre na boca adusta o círio ardente: Vosso peito também no esforço vivo Fomentava os ardores de valente, Ambos ardendo, um de outro satisfeito, Na calma o círio, no valor o peito.
XXVII
Qual Águia ilustre, que do Sol os raios, Sendo de altivas plumas adornada, Sem maltratar-se à luz, sem ter desmaios, Bebe constante, opõe-se remontada: Águia Vós remontado em bélicos ensaios Vendo raios de Marte na estacada, Águia sois, e subis com mais instinto, Ela ao Planeta quarto, vós ao quinto.
XXVIII
Se fulminais ousado, forte, e ledo Contra Iberos Gigantes a pujança, Oh que estrago! Oh que lástima! Oh que medo! Quando a espada tratais, brandis a lança: Mui cedo pelejais venceis mais cedo O Transtagano ardor Flegra se alcança, Vendo Iberos Gigantes, senão erro, Por Júpiter a vós, por raio o ferro.
XXIX
Qual firme escolho, que no mar resiste Ao cristalino impulso, que discorre, Ou quando o mar com crespa fúria insiste, Ou quando o mar com terso aljôfar corre: Assim também quando a borrasca assiste, Assim também quando a bonança ocorre, Já do bem, já do mal; ao mesmo instante Constante sois no bem, no mal constante.
XXX
Se espedaçando escudo, arnês, e malha Chovem globos em pólvora incendidos, E se arvoram bandeiras na Batalha, Os Castelhanos fortes já vencidos; Não fazem globos, que Vulcano espalha, terra, e das Não fazem ventos nos troféus movidos, Faz somente o valor, que em vós se encerra, As bandeiras tremer, tremer a terra.
XXXI
Qual ârion de estrelas matizado, Para que com cristais ao Mundo ofenda, Da procelosa espada nasce armado, Luminosa no Céu, no mar tremenda: Tal vós com vossa espada denodado Fazeis de estragos tempestade horrenda, Se bem com mais terror, que em glória nossa Água esperdiça aquela, e sangue a vossa.
XXXII
Em vosso peito habitam finalmente Todas as prendas do primor glorioso, Se não sois mil Heróis, Conde excelente, Sereis por vezes mil Herói famoso: Lograis bélico ardil, voz eloqüente, Prudente discrição, valor ditoso, Severo agrado, sangue esclarecido, Amado no temor, no amor temido.
XXXIII
Sendo vós exemplar da humana glória, Sendo do Luso Império forte amparo, Para eterno papel de vessa história Bronzes Corinto dê, mármores Paro: Vós esculpido na fatal vitória, Vós retratado no conflito raro; Metam medo aos remotos, aos vizinhos, Lenhos na imagem, no retrato linhos.
XXXIV
Cesse a Musa, senhor, retumbe a fama, Destempere-se a Lira, entoe a Trompa, Que quando o Plectro humilde vos aclama, É bem que a tuba o Plectro me interrompa: Se vosso esforço como Sol se afama, Dos Gigantes a filha os ares rompa, Donde se veste esse Planeta louro Mantilhas de rubi, mortalhas de ouro.